Leitura,
Dislexia e Consciência Fonológica
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Copyright © 2002 - Vicente Martins
Vicente Martins
é professor de Lingüística e Educação Especial da Universidade Estadual
Vale do Acaraú(UVA), de Sobral, Estado do Ceará. E-mail:
vicente.martins@uol.com.br |
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1.
O significado das palavras
2.
O valor da consciência fonológica
3.
O reconhecimento das palavras
4.
Uma luz importante
5.
Bibliografia básica compulsada
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mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
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Agora, responda, se puder, as
perguntas abaixo para avaliar sua consciência fonológica :
1)
qual das duas palavras acima você pronuncia mais rapidamente?
2)
qual delas você daria alguma noção ou aproximação de significado?
Se disser que encontrou
dificuldade em pronunciar as duas palavras , você tem, realmente, razão.
Ambas, é verdade, possuem 46 letras. Se encontrou dificuldade em encontrar
algum grau de significação no item a, também tem razão: a palavra
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito não é palavra, não tem
significado nenhum na língua portuguesa.
Em todo caso, como podemos analisar
são duas palavras esdrúxulas, esquisitas, extravagantes, mas apenas uma
delas, isto, pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico ,
opção b, realmente, é palavra e está registrada no novo
dicionário houaiss da língua portuguesa, tendo por definição “estado
de quem é acometido de uma doença rara provocada pela aspiração de cinzas
vulcânicas “.
A outra palavra, isto é,
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito, a rigor, do ponto
lingüístico, é uma palavra ad doc (nonce word), não significa
nada, foi inventada por mim, no processo de elaboração deste texto, de tal
modo que é uma palavra fictícia, ou tem forma ou aparência de palavra, que
se assemelha, em configuração grafêmica ou fonêmica, a palavras da língua
portuguesa.
Para a lingüística tradicional,
palavra é um elemento lingüístico significativo, composto de um ou mais
fonemas. No caso da palavra
Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, ainda que chegue a Ter
46 letras. ela é uma unidade lingüística cujo significado está na cultura
vigente, na compreensão oral, na fala e na escrita.
Pois bem. Para nós, investigadores
dos processos de lectoescrita, psicopedagogos, fonoaudiólogos,
neurologistas, psicolingüistas ou psicólogos cognitivos, pais, professores,
enfim, podemos, a partir do caso acima, ilustrar como podemos descobrir
indício de uma dificuldade de leitura ou dislexia.
Não obstante, você pode indagar:
qual das palavras acima citadas, poderia ser a “ isca”, importante indício,
no diagnóstico e processo de avaliação leitora?” Por incrível que pareça,
para um diagnóstico preliminar ou básico, em sala de sala, feito por um
educador, sem que o aluno precise ir a uma clínica psicopedagógica ou
fonoaudiológica, a palavra que, surpreendentemente, nos é útil, e,
portanto, serve-nos como parâmetro para diagnóstico, é
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito, a falsa palavra.
Uma criança ou um adulto pode ser
considerado uma leitor hábil, competente na decodificação e compreensão
leitoras, no processo de aquisição da linguagem, quando é capaz não apenas
de ler palavras não-familiares como em
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, que já é registrada
no dicionário brasileiro, mas é capaz de ler, também, palavras fictícias,
criadas pelos examinadores, professores, pais ou reeducadores lingüistas
clínicos, terapeutas da linguagem, fonoaudiólogos, quando submetido a um
processo avaliativo de sua competência leitora.
Para Andrew W. Ellis, em seu livro
Leitura, escrita e dislexia: uma analise cognitiva, a
familiaridade é um fator que determina, influencia e afeta a facilidade ou
dificuldade do reconhecimento de palavras na leitura hábil, isto é, a
leitura em voz alta. (Artes Médicas, p.20)
2.
O valor da consciência
fonológica
Uma das
tarefas dos psicopedagogos, fonoaudiólogos, psicólogos, ou psicolingüistas,
na avaliação da compreensão leitora, é comparar o reconhecimento de palavras
familiares com o reconhecimento de palavras não-familiares.
Para
uma criança, na educação infantil ou alfabetização ou ainda no primeiro
ciclo do ensino fundamental, situando-se na etapa que os investigadores
chamam de leitura inicial,
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
é uma palavra não-familiar, esquisita, um palavrão; mas para um adulto, ou
leitor competente, curioso, pode ser uma palavra familiar, isto é, uma
palavra em que o bom leitor é capaz de decompor em seus morfemas (radicais,
sufixos, por exemplo) e fonemas (vogais, consoantes ).
Quando
o leitor principiante aprende que
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
traz, na sua estrutura lingüística, formas que estão presentes no mundo
vocabular, o seu ou o revelado pela cultura do meio em que vive, encontrará
níveis de contigüidade semântica da palavra não-familiar com outras
palavras familiares como no caso pneumonia, ultramar , microscópio,
vulcão, cone, ouvido, sulfúrico, de modo a fazer, também, a
identificação rápida e fácil da forma, da pronúncia e do significado
apropriado, viável, de uma palavra encontrada no texto escrito ou ouvido na
mídia.
A
aprendizagem da palavra
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
ou de qualquer outra palavra esdrúxula ou não-familiar ou mesmo uma
não-palavra requer da criança, durante o processo de leitura, pelo menos,
três “representações internas” : a) aparência, b)
significado e c) som,
presentes na estrutura da palavra e a ligação dessas representações umas às
outras. A aparência lingüística leva o leitor hábil ao reconhecimento da
palavra. O significado e o som de uma palavra, por seu turno, são
revelados pela consciência fonológica, alcançada no processo de
aquisição da habilidade lectoescritora na escola.
3. O
reconhecimento das palavras
Por fim, uma pergunta pode agora
advir: quando a palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
tornar-se-á familiar para a comunidade brasileira ou lusófona? Responderei
assim: uma palavra torna-se familiar para os educandos e para os já
escolarizados, quando ela , a palavra, realmente, é percebida,
isto é, a comunidade lingüística é capaz de fazer a identificação visual ou
auditiva da palavra e pode lhe atribuir algum grau de significado.
Para as crianças que vêem e lêem
palavras ou não-palavras, no mundo da leitura, fora ou dentro da escola,
tendem, quase sempre, a ter facilidade de identificar as formas
lingüísticas que são verdadeiramente palavras, isto é, signos lingüísticos,
dotados de significado (conceito, idéia) e significante (estrutura fônica).
Quando estão diante de palavras
fictícias ou pseudopalavras, não apenas encontram dificuldade de
pronunciá-las mas de reconhecer sua estrutura lingüística, uma vez que as
não-palavras são dotadas apenas de significantes da língua, mas que
nada representam no mundo da leitura ou na fala das pessoas.
Por excelência, os fonemas são os
significantes mais discretos de uma língua, as menores unidades
sonoras distintivas da palavra, todavia, isoladas, são unidades abstratas,
nada significam. Os morfemas, ao contrário, unidades significativas, como os
radicais e sufixos que formam a palavra
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, são elementos que ajudam
na compreensão da mesma, ainda que a palavra tenha um processo de formação
derivacional tão complexo ou ainda que tenha, na sua aparência ou
representação grafêmica, 46 letras, sendo, definitivamente, a maior da
língua portuguesa.
Pode-se, então, nessas alturas,
fazer as seguintes indagações:
a)
se uma criança ou adulto, após exercício de soletração, pode pronunciar, em
voz alta, a palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
por que não encontraria a mesma “ facilidade” na falsa palavra
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito?
b)
Como poderíamos justificar tal comportamento lingüístico?
c)
A palavra escrita pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico é
uma combinação não familiar de letras?
d)
A pseudopalavra “mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito" é
uma combinação não familiar de fonemas e, por isso mesmo, mais difícil de
pronunciar?
São muitas as perguntas, longas e
complexas, mas todas têm uma resposta curta e simples. É a velocidade de
leitura de pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, palavra
que tem a mesmas letras e praticamente os mesmos fonemas da falsa palavra
, que indica sua familiaridade na pronúncia corrente a partir de sua forma
escrita. Depois de alguns minutos alguém pode, com certa dose de
brincadeira ou ludicidade, guardar, em sua memória de longo prazo, a palavra
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, como uma nova e
esdrúxula palavra no seu universo semântico ou vocabulário individual. Não
encontraremos a mesma destreza lingüística para as palavras falsas.
4. Uma luz importante
Em substância, diria o seguinte:
quem adquire consciência fonológica no decorrer da aquisição de
linguagem pode não apenas ler palavras esdrúxulas, familiares ou
“não-palavras, como mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito,
que nada diz, que nada revela, nem na sua forma nem sua configuração
lingüística. O leitor hábil decodifica e compreende palavras que têm
significado e desconfia de palavras que, mesmo podendo ser decodificadas,
não têm significado nenhum no seu mundo cultural.
Uma criança com dislexia
fonológica, com deficiência na sua consciência fonológica, por exemplo, pode
lentamente pronunciar pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico,
e no decorrer do tempo, ganhar destreza na decodificação, mas sua pronúncia
será sofrível quando tentar pronunciar
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito. Surpreendente e
inesperadamente não fará, à guisa dos leitores hábeis, o reconhecimento
instantâneo da falsa palavra. Falta aos disléxicos fonológicos um
background de conhecimentos fonológicos da língua materna além de
habilidades lingüísticas orais presentes na habilidade leitora.
A aprendizagem da leitura, tendo,
por base, o método fônico, levará à aprendizagem da pronúncia de palavra
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico ou
anticonstitucionalissimamente, de modo que deixa de ser estranha e
sem sentido quando realmente lida(decodificada e compreendida) e torna-se
algo que parece familiar, dela se extraindo um significado e levando o
emissor ou receptor a uma emissão viável ou a recepção produtiva.
Esta reflexão metalingüística, a
partir da maior palavra da língua brasileira, é uma verdadeira epifania
para os que atuam na Psicopedagogia e Psicolingüística e um achado
excêntrico, mas luz importante, para os estudiosos dos processos de
aquisição de leitura e escrita da comunidade lusófona.
5.
Bibliografia básica compulsada:
1.
ALLIENDE, Felipe, CONDEMARÍN, Mabel. (1987). Leitura: teoria, avaliação e
desenvolvimento. Tradução de José Cláudio de Almeida Abreu. Porto
Alegre: Artes Médicas.
2.
DUBOIS, Jean et ali. (1993). Dicionário de lingüística. Direção e
coordenação geral da tradução de Izidoro Blinstein. SP: Cultrix.
3.
ELLIS, Andrew W. (1995).Leitura, escrita e dislexia: uma analise
cognitiva. 2ª edição. Tradução de Dayse Batista. Porto Alegre: Artes
Médicas.
4.
HARRIS, Theodore L, HODGES, Richard.
(1999). Dicionário de alfabetização: vocabulário de
leitura e escrita. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre:
Artes Médicas
5.
MONTEIRO, José Lemos. (2002). Morfologia portuguesa. Campinas:
Pontes.
6.
RODRIGUES, Norberto. (1999). Neurolingüística dos distúrbios da fala..
São Paulo: Cortez: EDUC (Fala viva; v.1)
7.
YAVAS, Mehmet, HERNANDOREMA, Carmen L. Matzenauer. LAMPRECHT, Regina Ritter.
(1991). Avaliação fonológica da criação: reeducação e terapia. Porto
Alegre: Artes Médicas.
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