1.
Conceito de leitura
2.
As funções
essenciais da leitura
3.
Os
processos da capacidade leitora
4.
Fatores
que influenciam a dislexia
5.
A
dislexia como fracasso inesperado
6.
Bibliografia e webliografia
básicas
1.
CONCEITO DE LEITURA
São quatro as habilidades da
linguagem verbal: a leitura, a escrita, a fala e a escuta. Destas, a leitura
é a habilidade lingüística mais difícil e complexa. A leitura é dos um
processo de aquisição da lectoescrita e, como tal, compreende duas
operações fundamentais: a decodificação e a compreensão.
A decodificação é a capacidade que
temos como escritores ou leitores ou aprendentes de uma língua para
identificarmos um signo gráfico por um nome ou por um som. Esta capacidade
ou competência lingüística consiste no reconhecimento das letras ou signos
gráficos e na tradução dos signos gráficos para a linguagem oral ou para
outro sistema de signo.
A aprendizagem da decodificação se
consegue através do conhecimento do alfabeto e da leitura oral ou
transcrição de um texto. Conhecer o alfabeto não significa apenas o
reconhecimento das letras, e sim, entendermos a evolução da escrita como: a)
a pictográfica (desenho figurativo), a ideográfica (representação de idéias
sem indicação dos sons das palavras) e a fonográfica (representação dos sons
das palavras). Toda palavra tem uma origem, uma motivação e, a rigor, não é
absolutamente arbitrária como quis Ferdinand de Saussure, em seu Curso de
Lingüística geral.
O agá, por exemplo,
nas línguas neolatinas, como o português, o espanhol, o italiano e o
francês, pode indicar um fonema mudo, mas traduz, por sua vez, uma origem
semítica heth. O grego, por exemplo, usou a letra h para representar a vogal
longa eta. Por isso, toda palavra, em português, iniciada pela letra h
(hoje, homem, história etc), é de origem grega.
A compreensão é a captação do
sentido ou conteúdo das mensagens escritas. Sua aprendizagem se dá através
do domínio progressivo de textos escritos cada vez mais complexos
(ALLIENDE: 1987, p.27)
2.
AS FUNÇÕES ESSENCIAIS DA LEITURA
São três os verbos que definem as
funções essenciais da leitura: a)
transformar, b) compreender e c) julgar.
Transformar, em leitura, se dá
quando o leitor converte a linguagem escrita em linguagem oral.
Compreender se efetiva quando o
leitor consegue captar ou dá sentido ao conteúdo da mensagem.
Julgar é capacidade que o leitor
tem de analisar o valor da mensagem no contexto social.
3.
OS PROCESSOS DA CAPACIDADE LEITORA
O enfoque da Psicolingüística,
ramo interdisciplinar da Psicologia Cognitiva e da Lingüística Aplicada,
considera a leitura como uma habilidade complexa, na qual intervém uma série
de processos cognitivo-lingüísticos de distintos níveis, cujo
início é um estímulo visual e cujo final deve ser a decodificação
do mesmo e sua compreensão. Refiro-me aos processos básicos e superiores
da habilidade leitora.
Os processos básicos da leitura são
também chamados de “processos de nível inferior”. Sua finalidade é o
reconhecimento e a compreensão das palavras. Dentro destes se encontram a
decodificação e a compreensão de palavras.
Os processos superiores ou de nível
superior têm por finalidade a compreensão de textos.
Os dois processos, isto é, os
básicos e os superiores, devem ser considerados no ensino do português e na
aprendizagem da lectoescrita uma vez que funcionam de modo interativo ou
interdependente.
Os processos básicos, isto é, que
se voltam à decodificação e à compreensão de palavras, são particularmente
importantes nas primeiras etapas da aprendizagem da leitura (ou leitura
inicial na educação infantil) e devem ser automatizados ou bem assimilados
no primeiro ciclo do ensino fundamental (até a quarta série), já que um
déficit em algum deles atua como um nó de gravata que impede
o desenvolvimento dos processos superiores de compreensão leitora.
Processos preceptivos
- O leitor atinge a decodificação através dos processos perceptivos e dos
processos léxicos. Os processos perceptivos referem-se à percepção visual.
A percepção visual permite a
extração de informações sobre cosias, lugares e eventos do mundo visível.
Portanto, a percepção é um processo para aquisição de informações e
conhecimentos, guardando estreita relação com a memória de longo prazo (MLP)
e a cognição.
A percepção é uma das primeiras
atividades que tomam parte do processo leitor e a forma mais específica da
percepção visual. Aprendemos a ler com o poder do olhar.
Ao nos engajarmos na leitura,
fixamos, inicialmente, nossa olhada nos símbolos impressos,
isto é, nas palavras e nos seus grafemas, e se não analisamos em
profundidade o que realmente ocorre pode parecer-nos que os olhos percebem
as palavras de uma linha ou de um texto de forma contínua. Ler, a rigor, não
é apenas ler as palavras nas linhas, na sua dimensão linear sintagmática,
mas ler as entrelinhas, o subjacente, o paradigmático, o ausente, o dito não
explícito no texto.
Essa operação visual se dá assim:
os olhos se movimentam da esquerda para direita mediante uns saltos rápidos
denominados “movimentos oculares sacádicos”. No percurso da leitura, vamos
alternando fixações e movimentos sacádicos e somente podemos
ler e compreender o que lemos nos períodos em que nos fixamos, em cerca de
um quarto de segundo (com a faixa média sendo de cerca de 150-500ms com uma
média de 200-250 ms) nos olhos no texto. (ELLIS: 1995, p.17).
A duração e amplitude das fixações
e a direção dos movimentos sacádicos não variam arbitrariamente, e sim,
dependem de: a) as características do texto, b) a maturidade dos processos
cognitivos do leitor, c) a visão, d) a fadiga ocular, e) a iluminação, f) a
distância olho-texto, g) a postura do corpo e h) o tipo de letra e papel.
Processos léxicos
– Depois da análise perceptiva, o passo seguinte é chegarmos ao significado
das palavras que, no ensino da língua materna, é, realmente, o que interessa
aos professores, à escola e à família e aos próprios alunos. Se nosso
objetivo é também a leitura em voz alta, então, devemos trabalhar a
soletração, a entonação ou a pronúncia escorreita das palavras.
Dois são os caminhos que existem
para chegarmos ao reconhecimento das palavras e extrairmos o
significado das mesmas. Falaremos pois de duas rotas que nos ajudam no
reconhecimento das palavras: a) a fonológica ou indireta ou também chamada
via indireta (VI) e b) a rota visual ou léxica ou via
direta (VD).
A rota fonológica
- A rota fonológica é a que a nos permite a leitura de textos,
segmentando-os, por força da metalinguagem, em seus componentes (parágrafos,
períodos, orações, frases, sintagmas, palavras, morfemas), como também em
sílabas ou em sons da fala (fonemas).
Baseia-se a rota fonológica na
segmentação fonológica das palavras escritas, por meio da qual o leitor tem
a alcança a chamada consciência fonológica. A rota fonológica é o
guia prático para o alfabetizador que trabalha, em sala de aula, com o
chamado método fônico de leitura.
A rota fonológica consiste
em descriminar os sons correspondentes a cada uma das letras ou grafemas que
compõem a palavra. Esta rota permite, na realidade, o reconhecer das letras
das palavras e sua transformação em sons. Através desta via, portanto,
podemos, como leitores hábeis, ler palavras pouco freqüentes (por exemplo,
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, a maior
palavra na língua portuguesa), desconhecidas e inclusive as
pseudopalavras (MARTINS: 2002).
A rota fonológica é a via, pois,
para se atingir a consciência fonológica, através da qual se
pode ler todas as palavras em língua portuguesa, já que nosso idioma
neolatino é alfabético e transparente, isto é, não tem palavras, a rigor,
irregulares, impossíveis de serem lidas (exceto os estrangeirismos)
Podemos, enfim, resumir os
objetivos da via fonológica no processo de aquisição da leitura:
-
Identificar as letras através da análise visual
-
Recuperar os sons mediante a consciência fonológica
-
Pronunciar os sons da fala fazendo uso do léxico auditivo
-
Chegar ao significado de cada palavra no léxico interno (vocabulário)
A via fonológica é mais lenta que a
via direta já que o processo requerido é muito mais extenso até chegarmos a
reconhecer a palavra, no entanto, não é menos importante e, inclusive,
podemos afirmar que os estágios iniciais da aprendizagem da leitura dependem
da consciência fonológica.
A rota visual ou direta ou
léxica - É uma rota global e muito rápida
já que nos permite o reconhecimento global da palavra e sua pronunciação
imediata sem necessidade de analisar os signos ( significante e significado)
que a compõem.
Os passos que temos na leitura de
palavras através da via direta são:
-
Analisar globalmente a palavra escrita: análise visual
-
Ativar as notações léxicas
-
Chegar ao significado no léxico interno (vocabulário)
-
recuperar a pronunciação no caso de leitura em voz alta
O modelo de leitura através da rota
direta permite explicar a facilidade que temos para reconhecer as palavras
cuja imagem visual temos visto com muita freqüência. Isto é, através desta
rota podemos ler palavras que nos são familiares a nível de escrita. A rota
direta é base para a prática do método global de leitura (também
chamado construtivista)
Em qualquer caso, ambas as vias
não são excludentes entre si As rotas fonológica e global são necessárias e
coexistem na leitura hábil. À medida que a habilidade leitora se
desenvolve, intensificamos as estratégias da via direta ou léxica ou ambas
ao mesmo tempo.
4.
FATORES QUE INFLUENCIAM A DISLEXIA
Os
padrões de movimentos oculares são fundamentais para a leitura eficiente.
São as fixações nos movimentos
oculares que garantem que o leitor possa extrair informações visuais do
texto. No entanto, algumas palavras são fixadas por um tempo maior que
outras.
Por que isso ocorre? Existiriam
assim fatores que influenciam ou determinam ou afetam a facilidade ou
dificuldade do reconhecimento de palavras, a saber: a) familiaridade, b)
freqüência, c0 idade da aquisição, d) repetição, e) significado e contexto,
f) Regularidade de correspondência entre ortografia-som ou grafema-fonema e
g) Interações. (ELLIS: 1995, p.19-28)
5.
A DISLEXIA COMO FRACASSO INESPERADO
A
dislexia, segundo Jean Dubois et alii (1993, p.197), é um defeito de
aprendizagem da leitura caracterizado por dificuldades na
correspondência entre símbolos gráficos, às vezes mal reconhecidos, e
fonemas, muitas vezes, mal identificados.
A dislexia, segundo o lingüista,
interessa de modo preponderante tanto à discriminação fonética quanto ao
reconhecimento dos signos gráficos ou à transformação dos signos escritos em
signos verbais.
A dislexia, para a Lingüística,
assim, não é uma doença, mas um fracasso inesperado (defeito) na
aprendizagem da leitura, sendo, pois, uma síndrome de origem
lingüística.
As causas ou a etiologia da
síndrome disléxica são de diversas ordens e dependem do enfoque ou análise
do investigador. Aqui, tendemos a nos apoiar em aportes da análise
lingüística e cognitiva ou simplesmente da Psicolingüística.
Muitas das causas da dislexia
resultam de estudos comparativos entre disléxicos e bons leitores. Podemos
indicar as seguintes: a) Hipótese de déficit perceptivo, b) Hipótese
de déficit fonológico e c) Hipótese de déficit na memória.
Atualmente os investigadores na
área de Psicolingüística aplicada à educação escolar, apresentam a
hipótese de déficit fonológico como a que justificaria, por exemplo, o
aparecimento de disléxicos com confusão espacial e articulatória.
Desse modo, são considerados
sintomas da dislexia relativos à leitura e escrita os seguintes erros:
a)
erros por confusões na proximidade
especial: a) confusão de letras
simétricas, b) confusão por rotação e c) inversão de sílabas
b)
Confusões por proximidade
articulatória e seqüelas de distúrbios de fala:
a) confusões por proximidade articulatória, b) omissões de grefemas e c)
omissões de sílabas.
As características lingüísticas,
envolvendo as habilidades de leitura e escrita, mais marcantes das crianças
disléxicas, são:
Ø
A acumulação e persistência de seus erros de soletração ao ler e de
ortografia ao escrever
Ø
Confusão entre letras, sílabas ou palavras com diferenças sutis de
grafia: a-o; c-o; e-c; f-t; h-n; i-j; m-n; v-u etc
Ø
Confusão entre letras, sílabas ou palavras com grafia similar, mas
com diferente orientação no espaço: b-d; b-p; d-b; d-p; d-q; n-u; w-m; a-e
Ø
Confusão entre letras que possuem um ponto de articulação comum, e,
cujos sons são acusticamente próximos: d-t; j-x;c-g;m-b-p; v-f
Ø
Inversões parciais ou totais de silabas ou palavras: me-em; sol-los;
som-mos; sal-las; pal-pla
Segundo Mabel Condemarín (1987,
p.23), outras perturbações da aprendizagem podem acompanhar os disléxicos,:
¨
Alterações na memória
¨
Alterações na memória de séries e seqüências
¨
Orientação direita-esquerda
¨
Linguagem escrita
¨
Dificuldades em matemática
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Confusão com relação às tarefas escolares
¨
Pobreza de vocabulário
¨
Escassez de conhecimentos prévios (memória de longo prazo)
Agora, uma pergunta pode advir:
Quais as causas ou fatores de ordem pedagógico-lingüística que favorecem a
aparição das dislexias?
De modo geral, indicaremos causas
de ordem pedagógica, a começar por:
·
Atuação de docente não qualificado para o ensino de língua materna
(por exemplo, um professor ou professora sem formação superior na área de
magistério escolar ou sem formação pedagógica, em nível médio, que
desconheça a fonologia aplicada à alfabetização ou conhecimentos
lingüísticos e metalingüísticos aplicados aos processos de leitura e
escrita)
·
Crianças com tendência à inversão
·
Crianças com deficiência de memória de curto prazo
·
Crianças com dificuldades na discriminação de fonemas (vogais e
consoantes)
·
Vocabulário pobre
·
Alterações na relação figura-fundo
·
Conflitos emocionais
·
O meio social
·
As crianças com dislalia
·
Crianças com lesão cerebral
No
caso da criança em idade escolar, a Psicolingüística define a dislexia como
um fracasso inesperado na aprendizagem da leitura (dislexia),
da escrita (disgrafia) e da ortografia(disortografia) na idade prevista em
que essas habilidades já devem ser automatizadas. É o que se denomina de
dislexia de desenvolvimento.
No caso de adulto, tais
dificuldades quando ocorrem depois de um acidente vascular cerebral (AVC)
ou traumatismo cerebral, dizemos que se trata de dislexia adquirida.
A dislexia, como dificuldade de
aprendizagem, verificada na educação escolar, é um distúrbio de leitura e de
escrita que ocorre na educação infantil e no ensino fundamental. Em geral, a
criança tem dificuldade em aprender a ler e escrever e, especialmente, em
escrever corretamente sem erros de ortografia, mesmo tendo o Quociente de
Inteligência (Q.I) acima da média.
Além do Q.I acima da média, o
psicólogo Jesus Nicasio García, assinala que devem ser excluídas
do diagnóstico do transtorno da leitura as crianças com deficiência mental,
com escolarização escassa ou inadequada e com déficits auditivos ou
visuais.(1998, p.144).
Tomando por base a proposta de
Mabel Condemarín (l989, p. 55), a dificuldade de aprendizagem relacionadas
com a linguagem (leitura, escrita e ortografia), pode ser inicial e
informalmente (um diagnóstico mais preciso deve ser feito e confirmado por
neurolingüista) diagnosticadao pelo professor de língua materna, com
formação na área de Letras e com habilitação em Pedagogia, que pode vir a
realizar uma medição da velocidade da leitura da criança, utilizando,
para tanto, a seguinte ficha de observação, com as seguintes
questões a serem prontamente respondidas:
Ø
A criança movimenta os lábios ou murmura ao ler?
Ø
A criança movimenta a cabeça ao longo da linha?
Ø
Sua leitura silenciosa é mais rápida que a oral ou mantém o mesmo
ritmo de velocidade?
Ø
A criança segue a linha com o dedo?
Ø
A criança faz excessivas fixações do olho ao longo da linha impressa?
Ø
A criança demonstra excessiva tensão ao ler?
Ø
A criança efetua excessivos retrocessos da vista ao ler?
Para o exame dos dois últimos
pontos, é recomendável que o professor coloque um espelho do lado posto da
página que a criança lê. O professor coloca-se atrás e nessa posição pode
olhar no espelho os movimentos dos olhos da criança.
O cloze, que consiste
em pedir à criança para completar certas palavras omitidas no texto, pode
ser importante, também, aliado para o professor de língua materna
determinar o nível de compreensibilidade do material de leitura (ALLIENDE:
1987, p.144)
Bibliografia
e webliografia básicas:
1.
ALLIENDE, Felipe, CONDEMARÍN, Mabel. (1987). Leitura: teoria,
avaliação e desenvolvimento. Tradução de José Cláudio de Almeida Abreu.
Porto Alegre: Artes Médicas.
2.
CONDEMARÍN, Mabel, BLOMQUIST, Marlys. (1989). Dislexia;
manual de leitura corretiva. 3ª ed. Tradução de Ana Maria Netto Machado.
Porto Alegre: Artes Médicas.
3.
DUBOIS, Jean et alii. (1993). Dicionário de lingüística. SP:
Cultrix.
4.
ELLIS, Andrew W. (1995). Leitura, escrita e dislexia: uma análise
cognitiva. 2 ed. Tradução de Dayse Batista. Porto Alegre: Artes
Médicas.
5.
GARCÍA, Jesus Nicasio. (1998). Manual de dificuldades de
aprendizagem: linguagem, leitura, escrita e matemática. Tradução de
Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas.
6.
HOUT, Anne Van, SESTIENNE, Francoise.
(2001). Dislexias: descrição, avaliação,
explicação e tratamento. 2ª ed. Tradução de Cláudia Schilling. Porto
Alegre: Artes Médicas.
7.
MARTINS, Vicente. (2002). Lingüística Aplicada às dificuldades de
aprendizagem relacionadas com a linguagem: dislexia, disgrafia e
disortografia. Disponível na Internet:
http://sites.uol.com.br/vicente.martins/