Li uma vez, na Revista Veja, em junho de 2003, artigo de
Claudio de
Moura Castro, sob o título Lições de Futebol,
em que o articulista assinala que os métodos de alfabetização em leitura não
podem se vistos como autos-de-fé, isto é, não podemos avaliar os métodos de
ensino de leitura como juízes de um tribunal de inquisição.
Deduzi da leitura do artigo que, dependendo de cada caso, métodos como o
fônico e o global podem ser aplicados aqui ou alhures, sem um juízo de valor
a priori. Assim também são os modelos de intervenção para os que apresentam
dificuldades específicas de aprendizagem em linguagem que, baseados em
métodos convencionais de lectoescrita, não se aplicam a qualquer situação de
crianças que apresentam dificuldades em leitura (dislexia),
escrita(disgrafia) e ortografia(disortografia).
A leitura do artigo nos leva a especular um modelo de proposta de
intervenção para os casos de dislexia fonológica, se fizermos aqui uma
comparação entre a leitura e o futebol, assim:o futebol é um esporte
disputado em dois tempos, de 45 minutos, por duas equipes de 11 jogadores
cada, no qual é proibido (exceto aos goleiros, quando dentro da sua área) o
uso dos braços e mãos, e cujo objetivo é fazer entrar uma bola redonda no
gol do adversário.
Assim como o futebol é o tempo escolar. São 45 minutos o tempo regular de
uma aula, mas, em geral, são dois tempos dedicados exclusivamente às sessões
de leitura, escrita e ortografia, durante as aulas de língua portuguesa. Os
disléxicos são como goleiros
que atuam
no gol (camisa 1) e são os únicos a terem direito de tocar a bola com a mão
(mais tempo dedicado ao tempo da leitura), desde que o façam na grande área
de seu campo (obedecendo as regras estabelecidas pelo professor orientador).
Os
disléxicos são “jogadores” que cometem muitas faltas durante as “partidas de
leitura”. Eles cometem “transgressão das regras de um jogo ou esporte da
leitura.
Nosso
objetivo, como educadores dos que apresentam dificuldades específicas em
leitura, em particular, no processo de intervenção psicopedagógica, é
evitar as infrações leitoras como: (1) dificuldade de ler palavras isoladas;
(2) dificuldade especial em decodificar palavras sem sentido ou
desconhecidas; (3) compreensão de leitura em geral superior à decodificação
das palavras soladas; (4) leitura oral imprecisa e trabalhosa; (5) leitura
lenta e (6) ortografia deficiente.
Os disléxicos, disgráficos e disortográficos, todavia, mesmo na condição de
goleiros, são considerados pelo time, técnico e torcido e, como
trabalhadores, são remunerados (avaliação leitora) como os demais jogadores
do futebol: podem utilizar suas habilidades lectoescritoras apenas dentro de
sua área cognitiva (memória) ou metacognitiva (compreensão), cujo objetivo é
interpretar a mensagem escrita, isto é, atribuir sentido ao texto lido.
As crianças que têm dificuldade, no campo de “futebol leitor”, têm
dificuldades em ler e enfrentam no “campo leitor” dificuldades com a leitura
em voz alta e com a ortografia quando têm de codificar (chutar), isto é,
converter os sons em letras. Na aparência são bons jogadores, mas, na
partida, fracassam. Não é uma incapacidade ou deficiência, mas têm uma
necessidade educacional especial. Não são desleixados, mas diferentes e a
escola (clubes de futebol, juntamente com a torcida) precisa respeitar seus
limites cognitivos.
Ocorre, como vimos, que o resultado do fracasso leitor, para os disléxicos,
disgráficos e disortográficos, sempre é inesperadamente insatisfatório para
os pais e professores e muito angustiante para os alunos, o que vai exigir
maior treinamento até que enfrentem, com êxito, a próxima equipe
“adversária” (avaliação leitora).
Os disléxicos perdem, em geral, a partida, isto é, deixam de ler com
acurácia, com relação à leitura inicial (decodificação), deixando de fazer
um
número de
pontos (habilidades leitoras) necessário para que entenda de forma acurada a
leitura de texto lido. Perdem o primeiro ou segundo tempo, mas não
significam que estarão sempre em times de segunda divisão. Uma vez
sistematicamente treinados poderão alcançar um nível de proficiência leitora
como os demais jogadores(leitores).
A
subvocalização é um indício de que, no “campo da leitura”, os disléxicos
foram mais lentos uma vez que ficam, diante do texto escrito, “ articulando
(palavras) silenciosamente ou de modo quase inaudível” quando lêem sozinhos,
isto é, quando estão com a “bola no pé” e são os próprios jogadores ou
sujeitos leitores.
No
entanto, perder uma partida não é perder o campeonato do “jogo da leitura”.
Terão que, na preparação rotineira e sistemática do “campeonato da leitura”,
no decorrer da sua vida escolar, desenvolver sua capacidade de desenvolver
sua aprendizagem através da leitura, escrita e cálculo.
Aprender a
ler de forma acurada, para os disléxicos, é como ganhar um campeonato ou
mesmo ganhar na loteria em que, no final do “certame”, “torneio” ou
“disputa” será a eles concedidos o título de campeão ao vencedor.
A
preparação dos disléxicos, disgráficos e disortográficos para o “campeonato
da leitura” se dá através de treinamento, ou mais, precisamente, de
programas de treinamento específico em seus pontos fracos, levantados na
anamnse psicopedagógica. O treinamento, por exemplo, da consciência
fonológica, é de uma importância para que os disléxicos desenvolvam a
habilidade de decodificação leitora sem a qual vai persistir a
subvocalização durante sua leitura em voz alta.
É o treinamento ou programa específico das habilidades
leitoras o caminho mais seguro para: (1) o desenvolvimento da
habilidade de ler, escrever e ortografar; (2)
aquisição do conhecimento metafonológico (a consciência fonológica e
fonêmica da sua língua materna); (3) prática de leituras de diversos
gêneros textuais e (4) produção de textos diversos, de modo a
assegurar-lhes a experiência adquirida em lectoescrita.