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Jorge Santos em "Partilhar para Crescer" - Boletim das ECAE do
distrito de Coimbra, nº 0 - Ano 1 - Dezembro/2000 - pp. 7-9 |
Crescer
é a coisa mais natural da vida. Crescemos desde o exacto momento da
concepção. Ninguém estranha que assim seja! Crescemos fisicamente
(a olhos vistos, nalgumas idades), crescemos cognitivamente,
crescemos socialmente e é bom que cresçamos também nas nossas
competências relacionais.
Todas as crianças e jovens
percebem que crescem: hoje têm que ir buscar a cadeira para chegar
às bolachas que estão em cima da banca da cozinha, amanhã já
basta porem-se em bicos de pés, daqui por uns tempos a mãe já as
esconde no armário mais alto da cozinha e, mesmo assim, não ficam
lá seguras por muito tempo. Também nós nos apercebemos do
crescimento dos nossos filhos: As calças que comprámos há meia dúzia
de dias já lhes ficam pelo meio da perna, os ténis que nos
custaram os olhos da cara já nem nas orelhas lhes servem, os amigos
lá de casa não resistem à originalidade de dizerem: “Estás
velha! Olha para o tamanho do miúdo!”.
Mal
nos distraímos já saem frases inteiras e perfeitamente perceptíveis:
Não tero ête vetido. Tero i pa tasa davó! E
por aí fora até começarem a falar em bits, bytes e
gigabytes! (E, às vezes, nesta fase a linguagem deixa outra vez
de ser perceptível para os pais, mas isso são contas de outro rosário
que não é para aqui chamado!).
As crianças com problemas graves
provocados por um qualquer tipo de deficiência não fogem a esta
regra universal: Crescem como todas as outras! Dia após dia somam
ao seu reportório de conhecimentos novas aprendizagens. Muitas
podem fazê-lo a um ritmo mais lento que outras, mas a sua interacção
com os colegas, com os educadores ou professores, com os materiais
que o Jardim de Infância ou a Escola lhe proporcionam, vão-lhe
permitindo estruturar conhecimentos cada vez em maior número e
ajudando-as, dia após dia, semana após semana, mês após mês, a
fazer novas associações e novas generalizações. Muitos meses
juntos (12 de cada vez) formam anos. Esses anos sucedem-se e estas
crianças deixam de ser crianças e passam a ser jovens. Reparem que
tudo isto tem uma lógica de progressão, de sucessão de tempo e
acontecimentos que faz sentido. Quando as crianças começam a
contar, fazem-no inicialmente de uma forma mecânica, muitas vezes
ainda sem ligarem o número que verbalizam à quantidade que ele
indicia... 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 etc., etc.. O percurso escolar
também tem esta lógica de progressão: 1º ano, 2º ano, 3º ano,
4ºano (1º ciclo) – 5º ano, 6º ano (2º ciclo) – 7º ano, 8º
ano, 9º ano (3º ciclo). Este percurso começa, para os alunos,
ainda crianças pequenas (5-6 anos) e acaba já com jovens
namoradeiros(as) de barba na cara ou faces maquilhadas.
Faz sentido, tudo isto. Percebe-se que é assim que é natural, entende-se a
lógica do sistema, a lógica do crescimento.
O que não tem lógica nenhuma é
que, quando uma criança apresenta graves problemas cognitivos,
muita gente acredite que deve alterar este fruir do tempo e do espaço.
E começa-se por lhe alterar a idade para entrar na escolaridade
obrigatória: Fica mais um ano no Jardim de Infância a pedido dos
pais e com a concordância dos técnicos. Todos convictos que é o
melhor para criança em questão, porque esta ainda necessita de
alguma maturidade e mais alguns pré-requisitos para enfrentar
aquele passo de gigante que é a passagem crítica do J.I. para o 1º
ano de escolaridade. Permitimo-nos (nós que somos ingénuos) pôr
aqui algumas perguntas: O que se pretende com este adiamento –
poupar as crianças ou poupar os professores? Será que a
maturidade, as capacidades, os pré-requisitos necessários não se
sabe bem para quê que a criança vai adquirir nesse ano a mais
compensam a separação dos colegas de sempre? Será que um
professor do 1º ciclo, que deverá saber responder a grupos em
fases de desenvolvimento tão distintos como as crianças de 5 anos
que entraram para o 1º ano e os de 10, 11 anos que estão de saída
não daria também conta do recado? Será que, talvez de uma forma
demasiado maternal, não estarão os técnicos a contribuir para uma
infantilização e um reforçar do atraso social e relacional dessa
criança?
Pensamos que muitos dos adiamentos
no início da escolaridade para crianças com déficit intelectual
acentuado não só não se justificam como podem ser prejudiciais ao
tal crescimento que deve ser natural e o mais harmónico que for
possível. Quando as diferenças a nível cognitivo são muito
grandes, parece-nos evidente que é nossa obrigação tentar não
agravar essas diferenças nos níveis social, relacional e no
comportamento adaptativo.
Este mesmo princípio parece-nos válido
para o decorrer da escolaridade. Com diagnósticos e avaliações
centradas em itens quase exclusivamente académicos, o princípio da
sucessão normal dos números é radicalmente alterado, e a progressão
da criança no 1º ciclo passa a ser mais ou menos assim: 1º ano, 2º
ano, 2º ano, 3º ano, 3º ano, 4º ano, 4º ano. Que estranha
progressão!
Quantas
vezes esta criança não conheceu 6 ou 7 professores diferentes na
sua turma e outros tantos nos apoios educativos! Entretanto, os seus
colegas e amigos vão ter que ir mudando. Ele que, normalmente, já
apresenta graves problemas de adaptação a situações novas, vê
esses problemas agravados porque a estabilidade do grupo a que
pertence é anualmente alterada e,
com o fundamento de que ainda não está preparado não se
sabem bem para quê, vão-lhe aumentando a terrível solidão de
estar no meio de uma turma a repetir indefinidamente aquilo que
nunca aprendeu a fazer e que não sabe para que serve!
Analisemos objectivamente um facto concreto: Será que uma criança com um déficit
intelectual acentuado que, aos 10 anos, só aprendeu a somar
quantidades até 8 ou 10 e com material de concretização e só lê
meia dúzia de palavras que já decorou de tantas letras juntar, vai
ganhar alguma coisa em passar mais dois ou três anos nessa escola?
Se as preocupações são as do cumprimento do programa..... pelo
ritmo das aprendizagens ele irá cumprir o programa do 2º ano aí
aos 30 anos! Não faz sentido nenhum! Não tem lógica! E já
repararam na pobreza que é o currículo dum aluno destes se estiver
limitado aos conhecimentos académicos constantes do programa
oficial?
Pensemos
um pouco, por favor, e assentemos os pés no chão: Se o esforço
que a escola fez dirigido a um aluno se centrou, durante 6 ou 7
anos, em objectivos académicos e esse mesmo aluno não conseguiu
aprender um mínimo aceitável face a uma avaliação tradicional,
será que esse não foi um esforço perfeitamente inglório para a
Escola e um verdadeiro massacre para o aluno? Escrevamos num papel
aquilo que o aluno aprendeu esses anos todos e facilmente nos vamos
aperceber que o currículo dele foi paupérrimo e que,
objectivamente, todos os outros factores fundamentais para o
crescimento desse aluno - experiências novas e diferentes, manutenção
do grupo de amigos, frequência de novos ambientes, comportamento
adaptativo adequado à idade, etc. – foram esquecidos.
Não vamos hoje tirar mais
conclusões. Queremos apenas deixar tudo isto aqui escrito para, se
possível, ajudar a pensar. E, em nossa opinião, a linha de base
para pensarmos a progressão dos alunos com déficits intelectuais
acentuados deve ser o conceito de crescimento e a sua lógica que
explanámos na primeira parte deste artigo.
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