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A criação de classes escolares em hospitais é
resultado do reconhecimento formal de que crianças hospitalizadas,
independentemente do período de permanência na instituição ou de outro fator
qualquer, têm necessidades educativas e direitos de cidadania, onde se
inclui a escolarização.
Esse não é fenômeno recente.
Fonseca
e Ceccim
(1999)
abordam o assunto e esclarecem que, a partir da segunda metade do século XX,
observou-se que, em países desenvolvidos, como Inglaterra e Estados Unidos,
orfanatos, asilos e instituições que prestavam assistência a crianças
violavam aspectos básicos do desenvolvimento emocional das mesmas, por falta
de atendimento integral. Concluiu-se igualmente que tais lacunas
apresentavam o risco de seqüelas as quais, na vida adulta, poderiam evoluir
para condições psiquiátricas sérias.
Decorreu daí a iniciativa de
implementar experiências educativas para crianças e jovens internados em
instituições hospitalares. Com o transcorrer do tempo, a providência foi
também incorporada a hospitais brasileiros, com idêntico objetivo.
A
despeito da justiça social dessa iniciativa, verificamos que, em nosso país,
a escolarização de crianças e adolescentes hospitalizados não tem merecido
atenção suficiente, por parte do poder público, seja em nível municipal,
estadual ou federal. Na verdade, a ampliação dessa modalidade de educação
ainda é incipiente em nosso país.
No âmbito das
organizações da sociedade civil, temos algumas indicações da preocupação com
o respeito aos direitos dessas crianças e adolescentes. O Departamento de
Defesa dos Direitos da Criança, da Sociedade Brasileira de Pediatria,
através dos participantes na 27a Assembléia Ordinária do Conselho
Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda),
ocorrida em Brasília, em 17 de outubro de 1995, elaborou um documento,
aprovado por unanimidade e transformado em Resolução no 41.
Entre os 20 itens que se referem aos Direitos da Criança e do Adolescente
Hospitalizados encontra-se o de no 9, o qual preconiza:
Direito a desfrutar de alguma forma de recreação, programa de educação para
a saúde, acompanhamento do currículo escolar, durante sua permanência
hospitalar.
A legislação
brasileira reconhece o direito de crianças e adolescentes hospitalizados ao
atendimento pedagógico-educacional. A esse respeito, merece destaque a
formulação da Política Nacional de Educação Especial (MEC/SEESP, 1994 e
1995). Essa propõe que a educação em hospital seja realizada através da
organização de classes hospitalares, devendo-se assegurar oferta educacional
não só aos pequenos pacientes com transtornos do desenvolvimento, mas,
também, às crianças e adolescentes em situações de risco, como é o caso da
internação hospitalar (Fonseca,1999).
As providências
mencionadas são muito importantes, especialmente se considerarmos que,
apesar de acometida por uma enfermidade, a criança hospitalizada tem
interesses, desejos, sonhos e direitos de cidadania, como qualquer outra
pessoa de sua idade.
Dados do I
Encontro Nacional sobre Atendimento Pedagógico-Hospitalar realizado no Rio
de Janeiro em julho de 2000, indicam que no Brasil existem 67 classes
hospitalares em funcionamento e o município do Rio de Janeiro contava com 11
dessas instituições em atividade e 17 professores atuando, destacando-se,
entre essas, a classe hospitalar mais antiga ainda em funcionamento no
Hospital Municipal Jesus (hospital público infantil), que iniciou
oficialmente suas atividades em 14 de agosto de 1950.
Essas onze classes
hospitalares em atividade no Rio de Janeiro são vinculadas à Secretaria
Municipal de Educação e contam com professoras concursadas pelo município.
Elas constituem uma extensão da escola no hospital, isto é, seguem o mesmo
conteúdo didático sugerido pelo município, atendendo crianças e jovens desde
a Educação Infantil até a quarta série do primeiro segmento do ensino
fundamental. Devido às condições de saúde e peculiaridades do alunado
atendido, desenvolvem percursos individualizados, a partir de temas emanados
do multieducação – núcleo curricular básico do município.
Essas instituições podem ser
consideradas como espaços não-formais de educação, uma vez que, como
definido por Fávero (1980), a educação não-formal abrange qualquer
tentativa educacional organizada e sistemática que se realiza fora dos
quadros do sistema formal (de ensino), para fornecer determinados tipos
selecionados de aprendizagem (p.23).
Gohn (1999 ) acrescenta que a
educação não-formal designa um processo com quatro campos de dimensões,
entre eles, um que abarca aprendizagem dos conteúdos da escolarização
formal, escolar, em espaços diferenciados (pp. 98,99) – o que inclui a
classe hospitalar. Segundo a autora, no espaço de educação não-formal
existe a preocupação de se transmitir os mesmos conteúdos da escola formal,
entretanto esse repasse é desenvolvido em espaços alternativos e com
metodologias e seqüências cronológicas diferenciadas (p.102).
Em pesquisa realizada em
quatro classes hospitalares do município do Rio de Janeiro com nove
professoras participantes (Amaral, 2001), os resultados indicam que, do
ponto de vista da formação acadêmica, predominou a formação universitária,
havendo significativa presença de pós-graduadas. Entre as docentes, ficou
claro o desejo de acesso a uma formação mais consistente com as demandas do
trabalho nesses ambientes, de preferência no nível de especialização.
Compreender e respeitar essa reivindicação implica a consciência de que,
para atender à clientela de alunos hospitalizados, são necessários
conhecimentos sobre a rotina hospitalar, medicamentos, diferentes tipos de
enfermidades, dentre outros aspectos que não constituem práticas usuais de
uma professora de escola regular e nem fazem parte do currículo da formação
para o magistério, habitualmente. A ampliação das oportunidades de
aperfeiçoamento profissional poderá preencher lacunas que a formação inicial
docente deixou em aberto.
Não se pode desconsiderar,
conforme registro das entrevistadas, que pouco se divulga sobre classes
hospitalares no contexto universitário e, durante a graduação, não se tem
informação sobre essa alternativa de prática docente. Nessa linha de
pensamento, a possibilidade de continuar estudando após a graduação (em um
curso voltado para a área pedagógico-hospitalar) só teria a acrescentar
elementos qualitativos à sua prática cotidiana. Para reforçar essa
proposta, recorremos às palavras das próprias participantes:
“A gente está sempre
em busca de conhecimento que venha a somar para o nosso trabalho. A
graduação deixa muito a desejar em relação à Educação Especial. A gente nem
ouve falar em classe hospitalar”. Professora E.
“Um curso de
especialização voltado para essa temática, a classe hospitalar, seria o
ideal”. Professora C.
Dessa maneira seria possível
viabilizar a difusão de experiências bem sucedidas, a busca cooperativa de
solução para problemas do cotidiano, além de contribuir para aprofundar o
conhecimento sistemático das peculiaridades que permeiam a assistência
multidisciplinar ou interdisciplinar a ser prestada às criança ou
adolescentes enfermos.
Por outro lado, como
referimos, caberia preencher lacunas em termos de conhecimento científico
sobre diferentes tipos de doenças, procedimentos apropriados a cada grupo de
clientes, buscando-se sempre a contribuição integrada de enfoques como os da
Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise, do Serviço Social, da Didática e da
Pedagogia, de especialistas em ludoterapia, entre tantas outras áreas de
fundamental importância para o trabalho dos professores em classes
hospitalares.
Outra proposta que poderia
ser atendida pela formação no nível de especialização em classes
hospitalares, ou do trabalho de planejamento cooperativo em serviço, seria o
preparo para a elaboração de um projeto político-pedagógico coerente com as
necessidades e peculiaridades dessa clientela. Como em outras
situações análogas, é evidente que um trabalho de qualidade não pode ficar à
mercê do ensaio e erro ou restrito à boa vontade e capacidade de
solidariedade e dedicação dos profissionais, por mais que esses aspectos
sejam importantes.
Nessa perspectiva, as
próprias universidades, no exercício da função de extensão universitária,
poderiam promover experiências de apoio às instituições, na formulação,
acompanhamento e avaliação da implementação de projetos político-pedagógicos
apropriados aos objetivos e funções das classes hospitalares.
Também se fazem necessários
estudos que subsidiem a formulação de diretrizes curriculares e metodologias
de ensino-aprendizagem, a serem desenvolvidas junto às crianças e
adolescentes que se encontram em situação particularmente desafiadora e que
precisam ter garantidos seus direitos de cidadania.
A esse respeito, os
resultados da pesquisa indicam que as professoras desenvolvem importantes
iniciativas no sentido de adequar o currículo às demandas e necessidades do
seu alunado. Porém, precisam de suporte pedagógico, diante da necessidade
de pôr em ação um currículo que atenda às crianças e jovens com diferentes
tipos de problemas de saúde e que, por isso, têm permanência curta, média ou
de longa duração nas instituições hospitalares.
A prática pedagógica nesse
espaço exige dos profissionais envolvidos maior flexibilidade, por tratar-se
de uma clientela que se encontra em constante modificação, tanto em relação
ao número de crianças que irão ser atendidas pelas professoras bem como no
que diz respeito ao tempo que cada uma delas permanecerá internada e ainda o
fato de serem crianças e jovens com diferentes patologias, requisitando
diferentes intervenções. Logo, a atuação na classe hospitalar requer
compreensão para a peculiaridade de que, mais do que em outras instituições,
não existe uma receita pronta, um planejamento perfeito, uma cartilha de
respostas a ser seguida, mas sim um desafio de se traçar, a partir de temas
geradores, percursos individualizados.
As professoras recorrem,
sempre que possível, à ajuda de acompanhantes das crianças, os quais
precisam ser preparados para manifestar atitude positiva e de confiança na
recuperação da saúde e/ou na adaptação às limitações presentes, garantindo a
qualidade de vida. Não há dúvida da importância da parceria entre docentes
e familiares, os quais desempenham relevante papel, como elemento de apoio e
cooperação na preservação do equilíbrio possível entre os pequenos
pacientes.
No que diz respeito aos
profissionais de saúde envolvidos nesse processo, ainda existem algumas
dificuldades a serem ultrapassadas, como o intercâmbio de informações acerca
das patologias das crianças e jovens, a socialização do que está escrito nos
prontuários ou ainda as recomendações a serem seguidas, de acordo com a
enfermidade de cada paciente.
Acreditamos que tais
dificuldades, teoricamente, seriam facilmente transponíveis e que poderão
ser discutidas em seminários, reuniões ou mesmo simples encontros desses
profissionais, que num diálogo franco e no trabalho cooperativo, poderiam
avançar e apoiar-se mutuamente.
Além disso, os dados da
pesquisa são eloqüentes no sentido de esclarecer que as professoras têm
plena consciência de seu papel transformador nessa difícil realidade e
acreditam na afirmação da saúde e da vida das crianças e jovens
hospitalizados.
Para concluir, vale assinalar
que nossa permanência no campo e o conseqüente envolvimento com as nove
professoras e alunos das classes hospitalares dos quatro hospitais
proporcionaram muita reflexão e esperança, além de convicções sobre o
potencial do trabalho pedagógico junto aos espaços não convencionais, como é
o caso das classes hospitalares. Ao mesmo tempo, pudemos inferir o quanto
os cursos de graduação em Educação têm ficado à margem dessas
alternativas...
Diante disso, são explicáveis
as lacunas que afligem as professoras e outros profissionais que desenvolvem
atividades técnico-pedagógicas e administrativas nesses espaços. Nessa
linha de pensamento, a literatura analisada ao longo da pesquisa é
categórica quanto à sua caracterização como eminentemente pedagógica.
Decorre daí a premência de evitar o desenvolvimento de propostas meramente
recreativas ou assistencialistas, sob o rótulo de classes hospitalares.
Da mesma forma, cumpre
salientar a urgência de ampliação da proposta das classes hospitalares a
todas as instituições, para garantir a cobertura universal de crianças e
adolescentes hospitalizados, de acordo com suas condições e possibilidades.
Nossos resultados não deixam dúvidas quanto à importância desse trabalho e
os benefícios que ele traz não só para as crianças e jovens hospitalizados,
mas para as famílias, para o corpo médico e para as professoras atuantes.
Inferimos igualmente, a
partir de nossas observações, que as professoras entrevistadas têm enorme
amor pelo que fazem, sem contudo perderem de vista a dimensão profissional.
Por isso, buscam compartilhar com seus alunos a construção de conhecimentos,
orientada para o exercício da cidadania. Sob esse ponto de vista, exercem o
que chamamos de pedagogia do resgate: o resgate da saúde, a celebração da
vida.
Lembramos ainda que as
universidades que mantêm hospitais universitários para atendimento da
população e prática hospitalar de seus alunos da área da saúde, poderiam
incluir um projeto pedagógico-hospitalar, que teria potencial de prática dos
acadêmicos da área da Educação e áreas como a psicologia, fonoaudiologia,
enfermagem, serviço social, entre outras. Além da ampliação da abrangência
da formação de futuros educadores universitários, essa providência seria
muito relevante para as crianças e jovens hospitalizados. Além disso,
constituiria enorme contribuição das universidades, no cumprimento de sua
função social, respondendo a elevadas demandas da comunidade, promovendo um
novo campo de atuação para o exercício da cidadania.
BIBLIOGRAFIA
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