“Pessoas com
múltiplas deficiências necessitam de currículos para desenvolverem competências
básicas de vida diária”
RESUMO
Este artigo
traz uma reflexão sobre os conteúdos acadêmicos a serem trabalhados com
educandos que apresentam múltiplos comprometimentos. O texto revela uma
inquietação da autora ao elaborar um projeto pedagógico que contemple as reais
necessidades de uma população marginalizada socialmente. A linha mestra de
pensamento espelha-se numa perspectiva natural construtivista defendida por
John Dewey, filósofo pragmático democrático, que apesar de não apresentar
trabalhos específicos para uma população conhecida por pessoas com
comprometimentos severos reconhece a importância de aprender pela experiência,
proposta defendida neste trabalho. Os programas naturais operacionais defendidos
neste artigo visam promover aos educando comprometidos, habilidades de conduta
desde a mais simples e corriqueiras para as mais elaboradas. Ao final
apresenta-se breve resumo dos projetos pedagógicos denominados Agências
Integradoras da Escola de Educação Especial São Francisco de Assis em
Curitiba-Paraná.
Um dos grandes questionamentos dos
programas educacionais para pessoas com dependência de apoio refere-se a que
conteúdos, como conduzir uma aprendizagem significativa e como iniciar ou eleger
conteúdos apropriados e necessários sem que estes não se esvaziem durante seu
processo ou que caiam no esquecimento destes educandos?, como promover
estratégias funcionais que desenvolvam habilidades necessárias nas áreas de vida
individual e social passíveis de uma efetiva inclusão social independente de sua
condição atual?
Pessoas com sérios
problemas de desenvolvimento carecem de informações práticas e naturais que
favoreçam a aquisição de habilidades comuns inerentes ao seu bem estar físico,
emocional e que possibilitem uma vivência o mais independente possível.
Conteúdos acadêmicos desvinculados da necessidade real e individual do educando,
perdem-se no tempo e em conseqüência não são assimilados durante seu processo.
A designação
“graves comprometimentos” adotado atualmente corresponde ao que Lou Brown
considerou “significant disability”
e se refere a 2% de educandos menos capazes (neste percentual referem-se as
classificações deficiência mental moderada, severa e profunda). O autor em seu
artigo “What Regular Severe Intellectual Disabilïties”, publicado em 1987.
assim descreve esta população:
Alunos com deficiências
intelectuais severas sãos os que funcionam, sob o ponto de vista intelectual, no
nível mais baixo, constituindo 1% duma população normalmente distribuída e que,
tradicionalmente eram classificados como tendo um QI de 50 ou inferior ou
rotulados como tendo deficiência intelectual moderada, severa ou profunda. Para
além de funcionarem sob o ponto de vista intelectual abaixo de 99% da população,
estes alunos manifestam com freqüência uma gama variada de deficiências
adicionais como surdez, cegueira, surdez e cegueira, uso limitado de membros,
problemas graves de comportamento, incapacidade de se comunicar verbalmente ou
de andar sem ajuda, reação limitada a estímulos e problemas médicos graves. A
designação “severe intellectual disability”, significa diferenças quer em grau,
e em qualidade, em relação aos que são designados deste modo. (BROWN In:Costa,
1998 p.38)
A Política
Nacional de Educação Especial do MEC, reconhece atualmente a de definição
proposta pela Associação Americana de Retardo Mental –AAMR (1992);
Funcionamento intelectual geral
significativamente abaixo da média, oriundo do período de desenvolvimento,
concomitante com limitações associadas a duas ou mais áreas da conduta
adaptativa ou da capacidade do indivíduo em responder adequadamente às demandas da sociedade, nos
seguintes aspectos: comunicação, cuidados pessoais, habilidades sociais,
desempenho na família e comunidade, independência na locomoção, saúde e
segurança, desempenho escolar, lazer e trabalho. (BRASIL/SEESP, 1997 P.27)
Buscamos como
referência a relevante proposta de um sistema de educação natural e funcional
para estes educandos. As bases apregoadas por John Dewey, filósofo pragmático
colaborador da Escola Nova e que volta a ser lembrado nas escolas americanas.
Sua teoria baseia-se no pressuposto de que a aprendizagem está intimamente
ligada a vivência onde o consenso deve estar presente no dia-a-dia do educando
e para tanto os conteúdos escolares devem trabalhar numa situação próxima do
real em ambientes democráticos e naturais onde simultaneamente o aprender e o
fazer estejam intimamente ligados.
DEWEY, ao
referir-se ao desenvolvimento natural e a eficiência social diz que o objetivo
de obedecer a natureza significa observar a origem, o crescimento, o declínio
das preferências e interesses, as aptidões abrocham e desabrocham
irregularmente. O autor cita Donaldson em comentário sobre o desenvolvimento do
cérebro;
Os métodos educativos que
reconhecerem, ante as enormes diferenças de dons pessoais, os valores dinâmicos
das desigualdades naturais do desenvolvimento, e as utilizarem preferindo a
desigualdade à uniformidade obtida pela podadura, acompanharão de mais perto
aquilo que se passa no corpo, e se mostrarão assim mais eficazes. (DONALDSON In:
DEWEY, 1979 p.127)
As linguagens inadequadas, as diferentes leituras podem distanciar indivíduos de
uma comunicação efetiva. Sendo a linguagem elemento vivo da cultura o ensino
especial precisa conhecer a fala do aluno e buscar uma comunicação efetiva, sem
redundância de informações que podem ser importantes, mas, que no momento não
acrescentam nada ao educando pela complexidade do enunciado ou pela falta de
interesse destes.
Os programas operacionais têm a ver com funcionalidade natural do ensino. Os
fatos reais a vivência domiciliar do educando são elementos imprescindíveis para
e seleção de conteúdos a serem trabalhados em sala de aula. Os procedimentos de
ensino devem buscar a reprodução do convívio do aluno. |Subestimamos a
capacidade de nossos educandos quando trabalhamos fatos isolados e sem sentido
ou sem aplicabilidade imediata. Assim como acadêmicos de outros níveis de
ensino buscam a funcionalidade do aprendizado, educandos com dificuldades
específicas de aprendizagem desejam aprender o que realmente possam ter
significado para eles.
Pensar numa
educação natural remete-nos ao princípio da normalização expresso nos
fundamentos axiológicos da educação especial (Brasil, 1994) que se referem as
condições de vida (meio) e a forma de viver (resultados). Meios, referem-se as
condições e oportunidades sociais e educacionais e profissionais a que todas as
pessoas devem ter acesso. Resultados referem-se a características pessoais, a
normalização destes indivíduos.
Em seu trabalho
Democracia e Educação (1979) DEWEY ao comentar os valores educacionais saliente
que estes devem centralizar-se comumente na consideração dos vários fins para os
quais são úteis as matérias particulares dos programas, portanto, não se
concebem matérias que não sejam úteis para a vida.
Corre-se o risco, na educação formal em propor conteúdos
dissociados da vida do aluno, onde a educação tende a formular questões não
pertinentes, principalmente aqueles com dificuldades específicas de
aprendizagem.
A educação formal acha-se
particularmente exposta a este perigo, resultando com grande freqüência
recebermos com as ‘letras’ também um espírito meramente livresco, a que
vulgarmente chamam de ‘acadêmico’. Em linguagem familiar, a expressão ‘senso do
real’ é usada para exprimir a importância e o calor do contato de uma
experiência direta, em contraste com a qualidade remota, pálida e friamente
isolada de um experiência representativa. (DEWEY 1979, p. 255)
Descarta-se, a priori neste enfoque,
elementos complexos e detalhados, já que a base do conhecimento depende de
elementos pré-concebidos devidamente assimilados.A primazia do conhecimento deve
enfocar informações e habilidades úteis. Ressalte aqui a proficuidade das
informações pela observância dos currículos comuns escolares ao proporem em seus
programas conteúdos complexos e de certa forma não utilizáveis no momento ou
durante o curso de sua vida, conteúdos que não contemplem uma razão para seu uso
imediato ou póstero.
Pessoas com dificuldades relevantes de aprendizagem precisam adaptar-se ao
convívio familiar e social para sentirem-se realizadas. Pequenos hábitos
diários, como trocar de roupas, escovar dentes ou tarefas simples caseiras podem
ser ensinados de forma gradativa sistemática. O ato de escovar dentes exige o
conhecimento de sua escova pessoal, como identificá-la entre as demais da
família/ colegas, como pegá-la, espremer o tubo de pasta de dentes, como
segurá-la ou, como utilizar a água para enxágüe da boca e assim por diante.
Estas e outras atividades diárias, devem ser apresentadas e realizadas em
ambientes naturais quantas vezes forem necessárias para uma assimilação efetiva,
bem como para a internalização da necessidade atual até torna-se parte efetiva
da rotina do educando.
Enquanto crianças sem comprometimentos relevantes aprendem sem dificuldades pela
observância dos atos, as que apresentam dificuldades de compreensão precisam de
um ensino mais sistematizado e periódico isto é, carecem de elaboração de
procedimentos, bem como de estratégias verbais, visuais e também de realização
até ser internalizado a ponto de sua execução natural e espontânea. Desta forma
quando a criança acordar já lembrará que há uma rotina a ser cumprida que se não
for por uma consciência de higiene ou prevenção, este tarefa é necessária para
sua sobrevivência.
Não se pretende-se dizer que a conscientização de valores, como vantagens e
necessidades de higiene não deva ser repassada aos alunos ditos “especiais”
mas, que juntamente com a
consciência
esteja o
ato
e sua necessidade de execução, isto, porque conforme enfatizado no início, o
tempo de a cronológico é desfavorável a estas pessoas, isto a exemplo de
adultos que chegam aos trinta ou mais anos de idade e ainda não dominam
habilidades básicas para seu bem estar físico e consequentemente emocional.
Não há dúvida que o aluno aprende mais
se os conteúdos estão ligados intimamente a um problema de seu cotidiano. A
motivação para o aprendizado depende da objetividade dos elementos focados nos
programas escolares e em consonância com sua faixa etária e seus interesses
sócios emocionais, bem como com os procedimentos adotados para o ensino.
Os programas operacionais buscam um currículo funcional para aquisição de
habilidades que devem obedecer criteriosamente as seguintes questões: Quais
conteúdos são urgentes e necessários para aquisição de habilidades imediatas
destes alunos? Quais habilidades devem ser buscadas a médio e longo prazo que
atendam suas necessidades de vida diária? Quais habilidades deverá conquistar
para tornar-se o mais independente e produtivo em sua vida futura?
Estas questões devem considerar sempre o aluno em harmonia consigo mesmo, com a
família e instituição que o abriga, portanto aluno X família X escola, não podem
trabalhar isoladamente, objetivos comum e formas de ensinar devem caminhar e m
equilíbrio.
AUSÚBEL, In
COLL (1996) ao referir-se a sua teoria da aprendizagem verbal significativa
enfatiza que a aquisição de uma nova informação que se dá na aprendizagem
significativa é um processo que depende principalmente das idéias relevantes que
o sujeito já possui, e se produz através da interação entre a nova informação e
as informações presentes na estrutura cognitiva... “o resultado da interação
que tem lugar entre o novo material que será aprendido e a estrutura cognitiva
existente é uma assimilação entre os velhos e os novos significados, para formar
uma estrutura cognitiva mais altamente diferenciada”. (Ausubel, Novak e
Hanesian, 1978, In COLL 1996 p. 71).
O autor enfatiza ainda que a estrutura cognitiva humana está
organizada de forma hierárquica, o que supõe que as assimilações dos novos
conceitos são dependentes de aquisições prévias já internalizadas.
Considerando que
pessoas com defasagens expressivas de comunicação e assimilação mostram
dificuldades em abstrair ou elaborar problemas-situações, esses procedimentos
que se baseiam em atividades com diferentes graus de abstração que visem
conceitos “superiores”, necessitando portanto, uma trabalho sistemático e
natural sobre o objeto a ser aprendido.
Registre-se que a
eficácia da assimilação de conceitos está ligado intimamente aos procedimentos
de ensino e a seleção de conteúdos significativos inerentes as suas necessidades
imediatas, o que requer por parte do educador um estudo minucioso do educando
no sentido de diagnosticar o ponto de partida, as bases de apoio para os novos
conhecimentos, isto quer dizer que o retrato da realidade é imprescindível para
uma efetiva aquisição.
Cabe também aqui uma ressalva quanto ao
tempo dispensado para o ensino. Pessoas com dificuldades de aprendizagem
necessitam de tempo flexível. Conteúdos com prazos fixos tendem aniquilar-se
durante seu processo. O reforçamento torna viável a impostação destes através de
estratégias práticas e interessantes, tanto no ambiente escolar como em outro
contexto favorável, tais como na casa do estudante, e/ou ambientes
sócio-comunitário (mercado, lanchonete, açougue, cinema, clube....)
Segundo LeBlanc (1992) os objetivos
educacionais devem ser flexíveis para adapta-los ás habilidades individuais dos
educandos e seus procedimentos devem estar centrados em pontos fortes dos alunos
mais do que em suas dificuldades e o mais importante segundo a autora é que
estes devem se dirigidos a qualquer educando, em qualquer tipo de programa
educacional, não apenas com alunos com dificuldades de aprendizagem.
A operacionalide
de um currículo oportuno dever ter como referencia o próprio aluno que além de,
como já dito, deve observar tanto sua idade cronológica, como também buscar em
seu cotidiano as habilidades necessárias de condutas para interagir em
diferentes ambientes e situações.
DEWEY, ao
referir-se ao desenvolvimento natural e a eficiência social diz que o objetivo
de obedecer a natureza significa observar a origem, o crescimento e o declínio
das preferências e interesses, as aptidões abotoam e desabrocham irregularmente;
“Os métodos educativos que reconhecerem, ante as enormes diferenças de dons
pessoais, os valores dinâmicos das desigualdades naturais do desenvolvimento, e
as utilizarem, preferindo a desigualdade à uniformidade obtida pela
podadura, acompanharão de mais perto aquilo que se passa no corpo, e se
mostrarão assim mais eficazes”. (Donaldson In: DEWEY 1974 p 127).
Os programas
naturais e operacionais têm a ver com a funcionalidade natural do ensino. Os
fatos reais e a vivência domiciliar do educando são elementos imprescindíveis
para a seleção de conteúdos a serem trabalhados na escola. Os procedimentos de
ensino devem buscar a reprodução do convívio do educando. Subestimamos a
capacidade de aceitação de nossos educandos quando trabalhamos fatos isolados e
sem aplicação diária. Assim como, acadêmicos de outros níveis de ensino buscam
a funcionalidade do aprendizado, educandos com dificuldades específicas de
aprendizagem desejam aprender o que realmente possam ter significado imediato.
Estes programas estão sendo
utilizados pela Escola de Educação Especial São Francisco de Assis com êxito
expresso pelos educandos, familiares bem como pelos profissionais da
instituição. A curto prazo perceberam-se resultados satisfatórios,
principalmente nas área da independência e gerenciamento dos educando dos graves
comprometimentos
Inicialmente
iniciaram-se os projetos mudando a visão educacional dada ao educando. Os planos
de ensino atuais postulam-se na capacidade individual do educando no que ele
pode atingir num nível proximal projetando-se para níveis mais complexos. A
exemplo deste enfoque cita-se a locomoção destes educados durante sua descida do
ônibus escolar, onde a tendência destes, dos profissionais e familiares estava
em protegê-los da melhor forma possível de possíveis acidentes na escada. Ao
chegarem na escola os alunos já contavam com uma equipe de profissionais que os
aguardavam e prestavam apoio para sua descida e locomoção até as salas de aula.
Com mudança do paradigma “proteção” “para autonomia”, estes já não se
posicionam aguardando ajuda, mas buscam apoio nas barras das portas gerenciando
sua descida da escada. Estes comportamentos desencadearam outros gerenciamentos
como o de dirigir-se para a sala de aula ou a buscar outros ambientes sem
esperar pelo comando, assim os educadores tem assumido papel mediadores, o que
está refletindo em posturas mais positivas de ensino.
Os projetos deste
programas estão organizados em Agências Integradoras que se configuram em
espaços democráticos que tem como finalidade desenvolver senso de organização,
noções espaço-temporais, comunicação, autonomia e gerenciamento através de
ambientes estimuladores e funcionais por Agências de Unidades Básicas, do Corpo
e Salas Interativas.
Apesar de ainda
considerado projeto piloto, já se pode sinalizar nos educandos conquistas
individuais e de grupo que refletem também nas atividade dos educador e
famílias. A cada conquista o grupo da instituição motiva-se a buscar outras
habilidades e competências que a priori acreditavam não fossem capaz de serem
atingidas por esta população.
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Dissertação de Mestrado, PUC: São Paulo, 1998.
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Lou Brown utilizou a designação “desabilitado significativamente” numa
conferência apresentada no Congresso Internacional do “Council for Excepcional
Children” em Denver, Co., 1995, substituindo o termo “severe intellectual
disability, até então por ele utilizado”.