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"Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso dos meus anos;
Dei causa a que a fortuna castigasse
As minhas mais fundadas esperanças.
De amor não vi se não breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!"
Camões
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Sonhava,
anónimo e disperso,
O Império por Deus mesmo visto,
Confuso como o Universo
E plebeu como Jesus Cristo.
Não foi nem santo nem herói,
Mas Deus sagrou com Seu sinal
Este, cujo coração foi
Não português, mas Portugal.
Fernando Pessoa,
sobre o Bandarra
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Sei um pouco de cortiça
Não vejo fazer justiça
A todo mundo em geral
Que agora a cada qual
Sem letras fazem Doutores
Vejo muitos julgadores
Que não sabem bem, nem mal
Borzeguins pera calçar
Hão de ser cordovães
Notários, Tabeliães,
Tem o tento em apanhar
Bandarra:
1500? - 1556 - Sapateiro de Trancoso,
trovador, profeta
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Ser poeta é ser mais
alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca
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carta do soldado
Renato:
À da Canda, amor, aos morros do
Seixel vai demoradamente fixar-se a amargura das noites de guerra.
Calambata, sabes?, é uma trégua fuzilada, um morto que não morre mas
adormece. Aqui o tens vivo, as mãos fechadas sobre a sua
metralhadora. Pior do que estar de sentinela, pior que tudo são as
chamas ao longe, os olhos que me vigiam. Sente-se um homem espiado
pelas próprias árvores, ouvindo carrilhões impossíveis na calada da
noite. Escrevo-te, amor, por não saber nem o dia nem a hora. Com o
medo de estar apenas vivendo à beira do medo. Que escrevo. Colunas partem à
Magina, recebem de volta a notícia dos ataques aos quartéis do
Norte, o M'Pozo, a Mama Rosa, a Madimba, o Luvo, e a gente pensa que
há-de ser um dia também a destruição de Calambata, amor. Amor,
diz-se já que Calambata é apenas o som da nossa respiração: ama-se a
vida devagarinho, como nos repugna o cheiro a bálsamo dos mortos que
partem a qualquer hora do dia. Palavras dispersas pingam da infusa
do silêncio. Palavras. As palmeiras, por exemplo. Os imbondeiros, as
mulembas. Perderam a memória dos séculos. Um dia, amor, as armas serão
somente objectos de museu: os campos hão-de lavrar-se com charruas,
nas oficinas trabalharão bigornas, puas, enxós, o esmeril das mãos
que nos combateram, e a piaçaba dos cabelos encher-se-á da poeira
das madeiras, nas serrações. Era bom, amor, que se ouvissem os
guindastes nos cais, os alcatruzes das noras, o uivo do vento nas
grandes searas do Sul. Bom que o mar erguesse a voz um pouco acima
do sal até à alegria das lágrimas. Amor, é provável que não existam
brancos inimigos nas picadas de Nambuangongo. Os brancos não podem,
amor, continuar, aqui nas serras da Calambata, a alimentar a morte
das minas, dos morteiros e dos canhões. Será chegado o tempo, de se
cobrirem as crateras das granadas, de despoletar os trilhos, de
pintar os furos das balas no corpo das árvores da Binda. Por isso te escrevo, amor,
antes da minha morte. Nunca pisei uma lavra de milho ou mandioca,
sabes? Escrevo. Não chicoteio o suor do negro da tonga. Não troco
meu sapato velho, minha cerzida camisa, meu garrafão de aguardente,
pelo corpo da menina no alembamento. Escrevo, amor: reconstruí vós
as sanzalas de quantos se foram embora, para que possam ainda
regressar, viver. Pergunta-lhes por mim, amor. O que fazia. O que
inventava por vezes. O que escrevi eu aqui. Que branco caçambuleiro
esse, que diferente estava me chamar ainda? Que branco esse, polícia
lhe tinha raiva, lhe estava sempre xingar a voz da denúncia, quase
mesmo ia caindo na prisão do esquecimento? Que branco, amor? Minha pele tem o ardor das
anchovas da ração de combate, da pasta de fígado (os perseguidos
guerrilheiros sul-africanos, lembras-te, amor?). Mas tudo isso eu
fui trocando pelo desejo e pelo gosto da moamba de galinha e pelo
ácido do abacaxi com pancadinha discreta na curva do ombro, como a
dizer: coragem!
É o que escrevo aqui, sentado
na noite. No sítio onde estou, amor. De frente para os morros que
cercam Calambata cercada de guerra pelo Norte. A pensar, amor, que
há em mim um morto que não morre.
João de Melo
in
Autópsia de Um Mar de
Ruínas
(da guerra colonial em Angola)
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Mar Português
Ó mar salgado, quanto do
teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar !
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
mas nele é que espelhou o céu.
F.
Pessoa
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Máquina do Mundo
O Universo é feito
essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. Espaço vazio, em suma.
O resto é matéria.
Daí, que este
arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
António Gedeão
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O INFANTE
Deus quer, o homem sonha, a
obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em
continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te
português ...
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
F.
Pessoa
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