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O declínio da matemática grega, e do Império Romano,
marcam o início da influência muçulmana.
O início do calendário muçulmano coincide com o ano de 622. Ano
em que profeta Maomé, fundador do islamismo, foge de Meca (na actual
Arábia Saudita) dos seus adversários políticos e religiosos, e
refugia-se na cidade que mais tarde seria denominada de Medina (Cidade do
profeta).
Maomé pregava o monoteísmo e os mandamentos que dizia lhe terem
sido revelados pelo arcanjo Gabriel. Em Medina consegue o apoio de várias
tribos árabes nómadas e em 630 regressa conquista Meca impondo a sua religião.
Dois anos depois morre. Os sucessores do profeta, os califas, iniciam uma
guerra santa, conquistando territórios com o intuito de divulgar o
islamismo. Em menos de um século os muçulmanos conseguem conquistar um
imenso território. Derrotaram os persas e os bizantinos e conquistaram
rapidamente a Síria, para onde transferiram a capital (Damasco) do seu
império, em 661, a Palestina, a Mesopotâmia, o Egipto, Tunis e parte da Península
Ibérica (711). Na Europa, foram detidos em Poitiers, em 732, mas
conquistaram a Sicília e chegaram até à Índia em 1001. Acompanhando a expansão militar, os muçulmanos
também criaram um verdadeiro império comercial. Estabelecendo rotas
comerciais entre o Mediterrâneo e o Oriente.
Os povos conquistados foram integrados no império, mantendo alguns
direitos quanto à manutenção das suas culturas e religiões. Os muçulmanos
encontraram nas regiões conquistadas uma cultura superior à deles
assimilando-a. Na Síria e na Pérsia Sassadina, havia uma longa
tradição científica e de tradução dos clássicos
gregos,
no caso da Síria, e da astronomia
babilónica
do período Seleucido, no caso da Pérsia.
Durante o primeiro século do islamismo, maior parte dos matemáticos e
sábios em território muçulmano eram de outras religiões e escreviam
numa língua diferente da árabe.
Por exemplo, quando conquistaram a Arménia, então parte integrante da Pérsia, em
cerca de 640, já o geógrafo e matemático
Anania de Shirak deveria ter
escrito, em arménio, o seu livro sobre aritmética.
Por volta de 662, o bispo nestoriano Severus Sebokht, originário de Nisibis,
perto do rio Eufrates, na Mesopotâmia, escreveu em siríaco, com base em
fontes gregas, babilónicas e hindus, obras de astronomia, de geografia e
um tratado sobre o astrolábio. É deste autor a primeira referência,
fora da Índia, aos nove símbolos indianos para os algarismo (não refere
o zero).
Normalmente considera-se a matemática árabe não como a matemática do
povo árabe, mas a matemática escrita em árabe. Mas o árabe só passou
a ser a língua oficial de todo o império islâmico, quando, em 762, o
califa abássida al-Mansur (754-775), transferiu a capital para Bagdade, cidade por
ele criada. Tanto al-Mansur como o califa Harun ar-Rasid
(786-809) promoveram o desenvolvimento das ciências da natureza e da
matemática. Sob o reinado de ar-Rashid, que é retratado nos contos das
"Mil e uma noites, foi criada uma importante biblioteca, contendo
diversos manuscritos provenientes do império Bizantino. Nessa altura
numerosos sábios e tradutores, de diversas religiões, e vindos de
diversas regiões, agruparam-se em Bagdade.
O califa al-Mamum, que sucedeu a seu pai, ar-Rasid, governou até 833.
Fundou uma espécie de academia, Bayt al-Hikma, a Casa da Sabedoria, cuja
principal função era a tradução, pelos sábios, dos textos gregos e
indianos. A casa da Sabedoria, para além da biblioteca, possuía um observatório astronómico, muito
bem equipado. A Casa da Sabedoria durou durante cerca de 200 anos.
Os conhecimentos astronómicos eram, aliás, de grande importância para a
religião islâmica, não só porque permitiam a determinação do início
do Ramadão, como permitiam saber a direcção de Meca, para onde os
muçulmano deveriam virar-se para rezar. As primeiras traduções para
árabe são de medicina e de astronomia. Foi ainda na época de al-Mamum
que al-Fazari redigiu a sua primeira obra de astronomia, intitulada as-Sindhind
al-kabir, a partir da tradução do livro de indiano
Brahmagupta.
Como refere Victor Katz, não é possível escrever uma
história completa da matemática árabe, uma vez que muitos manuscritos
ainda não foram estudados ou mesmo nunca foram lidos. Esta situação é
ainda mais complicada quando o que se pretende estudar é a transmissão e
a originalidade de problemas do quotidiano, uma vez que alguns dos
manuscritos já estudados contêm partes com problemas deste tipo que não
foram estudados. Katz referia, ainda, como uma dificuldade suplementar, as
dificuldades políticas que não permitiam o acesso a muitas colecções
importantes.
Alguns dos trabalhos árabes são conhecidos devido à sua tradução para
latim feita na Europa durante a
Idade
Média. É esse o caso de alguns dos manuscritos de al-Khwarizmi, um
dos primeiros matemáticos a trabalhar na Casa da Sabedoria. Um dos contemporâneos al-Khwarizmi, a trabalhar na Casa da Sabedoria, foi al-Kindi,
cujo o trabalho sobre óptica foi traduzido por Gerardo de Cremona (cerca de
1152).
No século X, os três irmãos Banu-Musa, trabalhavam com
Thabit ibn Qurra na tradução de vários textos gregos para árabe. Assim,
no final do século X, os textos dos grandes cientistas gregos, tais como os
Elementos de Euclides, mas também livros de Arquimedes, de Apolónio
de Perga e de Ptolomeu, circulavam escritos em árabe (Berggren, 2007). Outro
autor que trabalhou nesta época, em Bagdade, foi al-Karaji.
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