
Problemas:
Caminhando para St. Ives
Caracol
e o muro
Carteiros
Dividindo o vinho
Maria
e as maçãs
Medindo
com vasilhas
Os sobreviventes
Pitagóricos
Torneiras
Travessias
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História da Matemática - História dos
Problemas
O(s) sobrevivente(s)
Eis uma versão do problema
retirado de um aritmética portuguesa datada de 1555, Tratado da Arte
da Aritmética, de Bento Fernandes.
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15
Mouros e 15 Cristãos
Quinze
cristãos navegando pelo mar toparam uma galé de mouros que
trazia 15 mouros e pelejaram tanto, de uma parte e da outra, que
se não puderam vencer e abalroaram os mouros e entraram dentro. E
quando se acharam tantos de uma parte como da outra vieram a
partido que se pusessem todos numa roda os mouros entre os
cristãos e que contassem de 1 a 9. E em quem acertasse, quer
fosse cristão ou mouro, o lançassem ao mar como chegasse a 9. E
assim fossem contando, sempre por diante, até chegar a 9 não
tornando para trás. E se acertasse de cair nos cristãos os
deitassem ao mar e os mouros levassem a presa e acertando nos
mouros os deitassem ao mar e os cristãos levassem a presa.
Pergunto: de que modo se devem pôr os cristãos e os mouros entre
eles para que os mouros se deitem todos ao mar e os cristãos
fiquem com a vitória?
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O
autor português persegue com a resolução:
E
por que entre os cristãos havia um homem experimentado na conta,
os pôs em ordem de modo que os mouros foram todos lançados ao
mar e ficaram os cristãos vivos e com vencimento.
E a maneira como se fez sabereis agora: primeiro põe 4 cristãos
e depois 5 mouros e depois 2 cristãos e logo 1 mouro; e adiante 3
cristãos e depois 1 mouro; depois 1 cristão e depois 2
mouros e adiante 2 cristãos e logo 3 mouros; e depois 1
cristão e depois 2 mouros; e depois 2 cristãos e adiante 1
mouro.
E assim fazem por todos 30, entre cristãos e mouros, e postos
assim em ordem, em roda, como está dito, começando a contar
primeiro dos 4 cristãos por diante até chegar a 9, contando
adiante sempre sem tornar atrás até chegar a outros 9 e como
chegar a 9, lançá-lo ao mar... |
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Diagrama do manuscrito do
francês Nicolas Chuquet, 1484 |
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Outras versões do problema
Este
problema envolve determinar a posição inicial das pessoas que
permanecem na roda, inicialmente com um determinado número N de pessoas, depois de algumas terem sido eliminadas através de um processo de contagem de m em m, que tem início numa
determinada posição.
O número de pessoas, inicialmente na roda, e o processo de contagem
variou ao longo do tempo e de autor para autor, assim
como o número de sobreviventes no final da contagem, mas, essencialmente,
as versões mais
comuns são as seguintes:
-
as
pessoas estão divididas em dois grupos, um dos quais é eliminado;
-
apenas
uma das pessoas sobrevive, ou seja todos, excepto a última pessoa,
são eliminadas.
A
primeira versão parece ser a mais antiga e Smith intitula este tipo de
problemas por Cristãos e Turcos, a segunda
que
aparece em muitos autores Japoneses,
não
se sabe ao certo a sua origem, mas parece ter sido Cardano, em
1539,
que associou o problema pela primeira vez a Josephus Flavius.

Personagens e culturas
Maior parte dos autores que mencionam este problema dão
exactamente a versão de Bento Fernandes
transcrita em cima. No entanto, as personagens da história nem sempre
são as mesmas.
A versão
mais comum, durante a Idade Média na Europa envolve 15 cristãos
e 15 turcos durante uma tempestade, mas é vulgar os turcos
serem substituídos por sarracenos, mouros (no caso
português) e judeus, no final, como seria de esperar, os
cristãos sobrevivem.
Fillipo Calandri, em cerca
de 1500, fornece uma versão com duas ordens religiosas, os Franciscanos
e os Calmodolesos numa peregrinação a São Sepulcro, como
se pode ver na imagem, é um franciscano que comanda a
distribuição, donde de pode deduzir qual o grupo de sobreviventes!
Quando a versão é fornecida
por muçulmanos, como por exemplo al-Safadi, cerca de 1370, são os infiéis,
que no final, são totalmente dizimados, e os muçulmanos
salvos.
No texto, do judeu espanhol ben-Ezra,
Ta'hbula de cerca de
1150, ao que parece, a personagem que faz a distribuição é o
próprio ben-Erza, distribuindo os 15 alunos e os restantes
15 passageiros do barco, de tal forma que os alunos são salvos. Ao
que se sabe a versão de ben-Ezra é a primeira a história aparece
contada num barco.
Numa história indiana 15
homens bons são salvos e 15 ladrões são dizimados.
Grupos e contagens
Embora maior parte dos autores
deu a versão envolvendo dois grupos de 15 personagens, cada, e em que
um dos grupos é eliminado após uma contagem de 9 em 9. Muitos referem
outras versões.
Tartaglia (1499 - 1557), por exemplo, dá exemplos com 15 judeus e
15 cristãos, contados desde 3
a 3 até 12 a 12. A imagem ao lado refere-se ao diagrama apresentado
por Buteo, em 1559, para a resolução, dos 15 judeus e 15 cristãos
contados de 10 em 10.
Chuquet, no seu Triparty, de 1484, generaliza dizendo que
podemos ter grupos de 18 cristãos e 18
judeus, ou 24 cristãos e 24 judeus, ou
qualquer outro número de pessoas, contados de 10 em 10 ou de 11 em
11 ou como quisermos.
Pacioli (1445 - 1517), em De Viribus quantitatis, fornece
três versões com apenas 2 cristãos. Uma,
apresentada ao lado, com 30 judeus, contados de 9 em 9,
salvando-se, no final, os cristãos. E ainda, os dois exemplos
seguintes:
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2 cristãos e 18
judeus, contados de 7 em 7 |
2 cristãos e 30 judeus, contados de 7 em 7. |
O problema também aparece só se salvando no final uma
das pessoas. Provavelmente o primeiro matemático a introduzir esta
versão foi Girolamo Cardano, em 1539. Euler, no seu livro de 1775, Observationes
circa novum et singulare progressionum genus, parece ter sido o
primeiro a considerar um algoritmo geral para o caso de um único
sobrevivente.
Na seguinte página poderá jogar este problema,
escolhendo um número de pessoas até 50 e a contagem que pretender:
http://www.cut-the-knot.com/recurrence/flavius.shtml
Ou fazer o download de um programa, que lhe permite saber
a ordem porque as pessoas vão sendo eliminadas em:
http://www.mindcracker.com/mindcracker/c_cafe/mfc/jose.asp
O problema pode ser generalizado a qualquer número de
pessoas, havendo no final um qualquer número de sobreviventes e
efectuando-se a contagem que se pretender!

Resolução e mnemónicas
Caso não se pretenda um algoritmo
que permita determinar a posição em que se é eliminado, o problema é fácil de
resolver. Ozanam, 1778, sugere a seguinte
resolução aplicada ao caso em que se quer eliminar 10 pessoas de
um total de 40, contando de 12 em 12.
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Colocam-se
em círculos 40 «zeros» e começando pelo primeiro, marca-se no décimo
segundo uma cruz, continuamos a contar até 12 e marca-se igualmente uma cruz, e assim sucessivamente, tendo em atenção que se deve passar por cima dos que já estão marcados, ..., e então contando a
posição [que os marcados] ocupam,
começando pelo primeiro, conhecemos facilmente aqueles sobre os quais caí,
necessariamente, a contagem de 12 em 12.
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Embora o problema seja de muito fácil resolução, muitos autores, a
partir do século XII, desenvolveram mnemónicas para se saber, como
dispor os «bons» e «maus». A mais comum para o problema dos 15
cristãos e 15 turcos, contados de 9 em 9, dada, por exemplo, por
Chuquet é:
4 5 21 3
1 1 2 2 3
1 2 2 1
Populeam virgam mater regina tenebat
Em que a = 1, e = 2, i = 3, o = 4, u = 5
e que nos indica que se deve começar por 4 cristãos, seguidos de 5
turcos (judeus), depois 2 cristãos, ...
As duas mnemónicas seguintes têm a mesma equivalência entre as
vogais e os algarismos:
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Pacioli (1445 - 1517) |
Ozaman, 1778 |

Página criada a 01-04-2004
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