À CONVERSA COM JOSÉ JORGE
LETRIA
UM ESCRITOR NA ESCOLA...
No passado dia 10 de Abril, o escritor José Jorge Letria esteve presente
na nossa
escola, onde, para um vasto auditório que enchia por completo a Biblioteca, falou de livros e canções e do
seu passado ligado a essas duas áreas. O
MOURO aproveitou para, numa conversa simpática, conhecer um pouco melhor a vida e
obra deste homem das letras.
![]() |
|
Quando andava na escola gostava muito de fazer redacções |
O MOURO - Gostava de ler quando era
pequeno?
José Jorge Letria - Quando era pequeno gostava muito de ler, acho que foi uma
das descobertas que fiz que ler era muito bom, então lia tudo o que aparecia à
minha frente desde os jornais que o meu pai comprava, aos livros que me
ofereciam...
O MOURO - Gostava de fazer redacção quando
andava na escola?
JJL - Quando andava na escola gostava muito de fazer redacções, acho que é
por aí que se manifesta a criatividade e imaginação das crianças. Lembro-me
de que uma vez fiz uma composição que falava de uma vaca que tinha asas e
voava.
O meu professor chamou o meu pai para o avisar do que se passava dizendo-lhe que
eu não estava bom da cabeça.
Na realidade o que estava na minha cabeça era basicamente a imaginação; e ter
imaginação na altura era considerado um perigo.
Uma criança que tem imaginação torna-se num adulto com imaginação, e um
adulto com imaginação pode falar de liberdade. Se falam de liberdade pode-se
falar de coisas que não convêm...
Nas minhas redacções, eu tentava não escrever aquilo que os outros escreviam
porque já sabiam que era aquilo que era obrigatório. Por exemplo, eu vi uma
redacção que na altura foi considerada muito boa, porque falava da vaca
dizendo que era um animal muito útil porque dava-nos a carne, o leite e com o
leite podíamos fazer queijo e com a pele também se podiam fazer tapetes,
pastas para irmos para a escola, etc. Eu decidi que a minha vaca tinha asas que
voava para fugir dos lobos. Naquela época isto era considerado uma coisa
altamente ameaçadora para o equilíbrio da normalidade da minha escola, mas na
verdade eu não me rendi e continuei a escrever aquilo que me apetecia até
chegar ao que faço hoje.
O MOURO - Quando é que descobriu que tinha
vocação para escritor?
JJL - A vocação descobre-se escrevendo, não há um dia em que uma pessoa
diga: "A partir de hoje vou ser escritor, a partir de hoje já decidi que
vou ser escritor", não, na altura ninguém tinha a ilusão de que queria
ser escritor. Os meus pais ficariam aterrorizados com a ideia de eu ser escritor
perguntar-me-iam como é que eu iria sobreviver! Naquela altura queria ser
outras coisas, queria ser aviador, queria ser polícia, queria ser cowboy...
tudo o que via eu queria ser! Mas eu descobri a minha vocação quando comecei a
perceber que tinha de escrever cada vez mais coisas à margem do que escrevia
para a escola, para satisfazer a minha necessidade de contar coisas às pessoas.
Eu percebi que a escrita era um meio de comunicação social e acho que descobri
uma vocação.
| Quem é
José Jorge Letria?
Nasceu em Cascais em 1951. |
O MOURO - Quem o incentivou a escrever e quando
publicou a sua primeira obra?
JJL - Não tive grande incentivo, os meus pais aceitavam que eu escrevesse, o
meu pai tinha muito orgulho que eu escrevesse, achava que era mais um
passatempo, não encarava como uma profissão, mas tinha muito orgulho naquilo
que fazia e a minha mãe também, mas tinha medo que a literatura me desviasse
da minha profissão e eu acabei por ir para a Faculdade de Direito.
Depois fui para o jornalismo, porque realmente era aquilo que eu gostava...
Quanto à publicação do primeiro livro aconteceu em Janeiro de 1973 e o livro
chama-se "Mágoas Territoriais" que é um livro de poemas.
O MOURO - Qual é o seu animal preferido?
JJL - Durante muitos anos o meu animal favorito foi o cão, porque convivi muito
com eles. Depois convivi com gatos e apaixonei-me por eles. Hoje tenho oito
gatos e três cães. Apesar de os cães e os gatos não se darem muito bem eu
não tenho problemas, pois os meus gatos dormem enroscados nos cães e gostam
uns dos outros.
Hoje posso dizer que os meus animais preferidos são os cães e os gatos.
O MOURO - "Mouschi, o gato de Ann Frank
aborda o tema da Segunda Guerra Mundial.
O que sentiu ao escrever este livro?
JJL - Senti uma grande responsabilidade e prazer, porque demorei muitos anos a
abordar o tema da Ann Frank. Já tinha escrito "Cartas aos heróis" e
também já tinha escrito "Uma Carta a Ann Frank" e então decidi
fazer uma história mais longa e mais completa.
Senti muito prazer e responsabilidade ao fazê-lo. Este livro tem uma personagem
que é um símbolo que ajuda as crianças a conhecer a tragédia da guerra, a
liberdade e a paixão pela escrita.
O MOURO - Quais os seus temas preferidos?
JJL - Não tenho nenhum tema favorito porque gosto deles todos. Neste momento
vou publicar um livro "A ecologia explicada aos jovens e adultos".
Também escrevo sobre cidadania, sobre as religiões e a guerra, numa colecção
chamada "Os caminhos da liberdade". Escrevo sobre a literatura em si,
sobre o maravilhoso, inventando personagens, portanto não tenho um tema
preferido.
O MOURO - Aristides de Sousa Mendes, diplomata
português que se encontrava em Bordéus na 2ª Guerra Mundial salvou trinta mil
pessoas e acabou por morrer.
O que pensa da sua atitude?
JJL - Eu acho que o Aristides de Sousa Mendes, assim como o general Humberto
Delgado, foram dois grandes heróis portugueses do séc. XX. Foram homens que
agiram de acordo com a sua consciência e lutaram pela liberdade, a sua e a dos
outros. O general Humberto Delgado era um homem que podia ter feito a sua
carreira nas calmas, estava no fim da carreira, podia ter-se aposentado e ter
tido uma boa reforma e ficar em casa, mas ele achava que o país não tinha
liberdade e devia conquistar a liberdade por Portugal e candidatou-se às
presidenciais em Junho de1958.
O MOURO - Também Luther King morreu assassinado
por defender a não-violência.
O que acha deste homem?
JJL - Tenho uma grande admiração por ele. Luther King é meu contemporâneo
porque eu cresci a ouvir falar da luta dele e a ver as imagens da sua luta. Acho
que ele foi realmente um herói embora nascido no seio de boas famílias, tinha
dinheiro podia não se ter preocupado nada com aquilo com que se preocupou, mas
ele achou que se devia preocupar em ser livre, quando houvesse liberdade para os
da raça dele, para os negros e portanto foi uma figura fundamental da luta dos
direitos civis e pela cidadania nos africanos afro- americanos dos Estados
Unidos e não só porque ele influenciou também as lutas de libertação em
África embora ele vivia nos Estados Unidos ele ajudou a influenciar muita gente
em África.
O MOURO - O Padre Alberto era "um tipo
Musical".
Conheceu o nosso Patrono? Cantou alguma vez com ele?
JJL - Conheci o Padre Alberto Neto muito bem. Conheci-o na altura em que eu era
cantor e ele foi das pessoas que abriram as portas das igrejas e dos centros
paroquiais para os cantores cantarem, canções que eram proibidas.
Lembro-me dele como um homem muito alegre, com um sorriso extraordinário, com
uma grande capacidade de transmitir convicções, ideais, alegria de viver.
Acho que a morte dele foi uma tragédia e recordo-me sempre dele, para além de
um padre, como um grande democrata e um amigo dos jovens. Foi uma pessoa que deu
o melhor da sua vida abrindo a Igreja ao exterior.
As igrejas não existem para estarem fechadas, existem para se abrirem ao mundo,
e na minha opinião, o Padre Alberto Neto contribuiu para isso e foi um grande
defensor dos ideais da liberdade. Acho que vocês devem ter muito orgulho em
estar numa escola que tem o nome dele.
O Padre Alberto Neto faz parte de um grupo de padres progressistas que existiam
nessa altura, como por exemplo o Padre Fanhais que fez um disco chamado "
Canções da Cidade Nova ". Sentiam a necessidade de criar a "Cidade
Nova", a "Escola Nova", o "País Novo"...
Desta maneira falavam da Democracia e da Liberdade que antes não existia.
O MOURO - O José Jorge Letria foi o mais novo
cantor de Intervenção.
Como foi conviver com a "Malta das Cantigas"?
JJL - Cheguei à universidade e comecei cedo a cantar. Eles
"adoptaram-me" e assim vivi a experiência mais rica e mais
estimulante da minha vida. Foi uma coisa fantástica!
Fiz vários espectáculos em locais onde o Padre Alberto Neto se encontrava
pois, ele era muito amigo de um amigo meu.
O MOURO - Sabemos que é membro fundador da
Academia Nacional de Tango.
De onde lhe vem essa paixão pelo tango?
JJL - Eu costumava ir visitar um tio que morava no Estoril. Este tio tinha
discos de vinil com tangos e suponho que foi ao ouvir esses discos que eu
comecei a gostar de tango. Depois quando comecei a fazer músicas em adulto,
comecei a fazer uns tangos, porque acho que é uma música popular e que entra
no ouvido de toda a gente.
O MOURO - Fez a recolha de provérbios de
várias culturas.
Diga-nos um dos seus provérbios preferidos?
JJL - É difícil, porque eu já lidei com tantos provérbios que tenho
dificuldade a escolher um, mas eu chamo-lhes toda a atenção para os
provérbios chineses Eu acho que os provérbios são tanto melhores quanto mais
antiga é a sabedoria que os produziu. Como os Chineses têm uma civilização
há cinco mil anos, vocês ali encontram praticamente tudo.
Eu não tenho um provérbio preferido, embora haja um árabe de que eu gosto
muito, que se aplica especialmente a estes dias que estamos a viver que é:
"Mãe, é nome de Deus pela boca das crianças ".
Acho que este é um dos provérbios mais bonitos que aquele livro tem.
O Mouro deixa-te agora aqui a
bibliografia e discografia deste escritor:
Para a Infância e Juventude:
Ficção:
Discografia:
Entrevista e recolha de dados de André Estevão, Bernardo Estevão, Ana Luís e
Carla Santos
Clube de Jornalismo