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| Paço: no corpo principal, arcos quebrados sobrepujados por janelas de sabor mourisco |
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| Paço da Vila |
O Paço da Vila é seguramente o monumento mais
emblemático de Sintra, com as suas características linhas assimétricas, resultado de sucessivas intervenções que atravessam toda a
história sintrense e se traduzem num conjunto de corpos arquitectónicos
aparentemente separados, mas que constituem um todo articulado entre si por
pátios, escadas, corredores e galerias. É aliás a esta heterogeneidade
estilística que se deve a estranha sedução que a sua requintada arquitectura
exerce sobre os visitantes de Sintra.
A origem mourisca do Paço é hoje reconhecida por todos os especialistas,
embora poucos vestígios se conservem dessa época: seguramente os revestimentos
azulejares das alas pertencentes ao antigo alcazar, e que se podem observar no
pavimento da actual capela, e talvez o pavimento também de azulejos com desenho
de laçaria em verdes desmaiados, castanho, manganês e amarelo sumidos da
chamada Sala de D. Afonso V. Sabe-se que que durante a ocupação árabe era a
residência dos walis muçulmanos, e essa herança foi depois sabiamente preservada
e relembrada nas sucessivas remodelações que o Paço sofreu. São pequenos
pormenores que trazem à memória essa época pré-nacionalidade como os pátios suspensos, com os seus frescos jardins e recantos silenciosos,
o
recorte de portas e janelas e a própria toponímia de alguns terreiros, como
é o caso do chamado Terreiro de Meca.
Depois da reconquista, o Paço perde algum do seu
brilho e será já quase no fim dos tempos medievais que se vai tornar o edifício modelador do carácter da vila, sobretudo após a
subida ao trono do Mestre de Avis, monarca que vai promover a execução de
importantes obras. Lembremos que ainda antes de usar a coroa, em plena crise de
1383/85, o futuro D. João I se serviria do Paço para atrair nobres à sua
causa, como aconteceu com D. Henrique Manuel, conde de Seia, a quem o Mestre
doou o palácio em 1385. No ano seguinte, contudo, e com a questão da sucessão
já resolvida, o palácio volta para a posse da coroa, dando-se então início a
um importante conjunto de obras. Datam dessa época, por exemplo, as
características chaminés cónicas, (clicar para
ver foto) que coroam a grande cozinha monacal
e que constituem o mais conhecido e retratado "ex-libris" da vila de
Sintra. Pelo que se depreende dos desenhos de Duarte D'Armas, no seu "Livro
das Fortalezas", as chaminés seriam originalmente revestidas de azulejos,
o que acentuaria ainda mais a sua imagem imponente.
Para este conjunto de obras D. João I terá contratado um importante artista
mudejar da época, o mestre Garcia de Toledo, que imprimiu ao Paço medieval o
seu carácter gótico-islâmico. A atestar esta hibridez podemos ver, no corpo
principal, sob a Sala dos Cisnes, quatro largos arcos quebrados,
sobrepujados por cinco elegantes janelas maineladas, com capitéis de
sabor mourisco e arcos em ferradura.
Da época joanina é também a capela (que tem como orago o Espírito
Santo) e o seu magnífico tecto de madeira estilo mudejar, embora tenha recebido
acrescentos posteriores, como o brasão de D. Manuel.
A chamada Sala Árabe também já existia no reinado do Mestre de Avis,
embora o revestimento que lhe dá o nome tenha sido colocado já no reinado de
D. Manuel. Trata-se de de um revestimento de azulejos verdes, brancos e azuis,
de fabrico sevilhano, envolvidos por um friso de maçarocas e flores-de-lis em
azulejos de fabrico português. No centro da sala destaca-se uma fonte em mármore,
assente sobre uma concha no mesmo material, que tem representados Proteu com o seu
tridente, diversas figuras marinhas, querubins nus e elementos de flora
fantástica, uma obra já quinhentista.
Entre os reinados de D. João I e de D. Manuel o Paço foi objecto de obras quase constantes, coincidindo com o período em que Sintra era uma das principais paragens da corte portuguesa e o Paço um palco privilegiado de alguns acontecimentos importantes da história portuguesa, como o planeamento da expedição a Ceuta, o nascimento e morte de D. Afonso V ou a aclamação de D. João II.
Acesso: Lg. Rainha D. Amélia
Protecção: MN, Dec. 16-06-1910, DG 136, 23 Junho 1910